Antes de seguir com a nossa crônica novaiorquina, quero começar compartilhando algo que considero importante. Estou escrevendo esses textos quase três anos depois da viagem, embora tenha sido uma viagem extremamente marcante.
Muito do que você vai ler aqui não é uma tradução factual inquestionável na sequência na qual aconteceram (não sou jornalista). Compartilho aqui minha percepção emocional causada pela constante revisitação dos meus registros fotográficos.
Existe um fenômeno incômodo quando se viaja pra um lugar incrível ou peculiar que eu gosto de chamar de “o paradoxo do registro”. Por um lado, a intensa vontade de usar todo seu armazenamento interno e em nuvem pra captar o máximo de imagens e sensações vividas durante aquela experiência.
Por outro lado, a percepção de que tudo o que você filme e fotografe será transmitido apenas como uma sombra da emoção à qual você foi exposto ao subir no avião, pisar em outro chão e contemplar essa nova visão. Apesar de todo o nosso avanço tecnológico, algumas coisas só podem ser completamente e integralmente experimentadas na sua hora e no seu lugar. O que não nos impede de tentar.
Sempre que estou viajando, tenho a impressão de estar registrando demais e vivendo de menos. E sempre que a viagem termina, tenho a impressão de que não registrei o suficiente. Um paradoxo da vida moderna. E vale salientar que isso expõe dois lados de qualquer roteiro turístico em uma cidade grande: o lado bom é que é muito difícil ficar desapontado; são tantas atrações, lugares, restaurantes e passeios que as chances de decepção diminuem drasticamente. O lado ruim? É que você vai embora com a sensação de que não viu muita coisa, o que não deixa de ser verdade, mas nem por isso isso gera algum senso de insatisfação.
Essa definitivamente foi a sensação em Nova York e na inútil tentativa de fazer um registro fidedigno do que estávamos vivenciando. Um mês antes da viagem, fiz a compra de um celular novo, pra quando o momento chegasse, eu pudesse fazer “o melhor registro”.
Ledo engano. Simplesmente não dá. Expectativa vs realidade, certo?
Pelas ruas (des)conhecidas
- “Adria… tamo em Nova York”
Repeti eu pela décima vez (naquele dia), comendo um churros e tomando um café enquanto atravessávamos a ponte do Brooklin a pé. Adria revirou os olhos e sorriu. Eu repetia essa frase em voz alta todos os dias de manhã quando colocávamos o pé pra fora do hostel a caminho da estação de metrô rumo a Manhattan. Durante os 5 dias gelados de viagem, nos dirigimos à Court Square para pegar a linha 7 do metrô rumo à 34th Street - Hudson Yards. Depois de uma breve parada pra tomar um café e comer um bagel (com ovo pra não perder o costume), seguíamos a programação predefinida.
Acredito que uma das melhores experiências quando se viaja seja andar pelas ruas sem pressa. E tentamos fazer isso.
Depois de uma visita ao World Trade Center Memorial, extremamente interessante, diga-se de passagem, e uma parada pra experimentar uma pizza na hora do almoço (porque não? estávamos de férias), seguimos andando pelas ruas de Manhattan a pé, sem pressa, minha irmã mais do que eu.
E foi ali que entendi algo: por mais organizado e sistemático que seja seu checklist turístico, não se pode ver tudo, e há mais valor em se perder por ruas aleatórias do que seguir uma lista turística hermeticamente ajustada via Google Maps.
Lição aprendida com minha irmã. Tenha pontos-chave, mas separe um dia para vaguear e inconsequentemente descobrir novos lugares. Independentemente de estar visitando uma metrópole ou uma vila. Se em um lugar novo. Perca-se. E apesar de uma mobilidade urbana eficiente, tomamos a decisão contraprodutiva de andar. Iríamos nos ater aos transportes públicos em caso de distâncias longas ou quando tivéssemos compromisso agendado. Não era o caso.
Andar entre os arranha-céus te dá um certo senso de perspectiva. De repente você percebe sua pequenez e se deixa levar pelo assombro causado pela magnitude dessa metrópole. E aí você entende o apelido: Selva de Pedra.
Desculpa a repetição, mas não tem como não se sentir em um filme. Dos prédios imensos, calçadas organizadas, trânsito caótico, ruas fumaçantes, andaimes intermináveis e lojas de souvenirs, a cidade te preenche de uma sensação extremamente difícil de descrever. Como se já tivéssemos passado por ali e tudo soasse estranhamente familiar. Caminhamos descobrindo praças, igrejas, travessias, parques, cafeterias até chegarmos ao que seria meu lugar favorito da viagem.
Chegamos à ponte do Brooklyn por volta das 17h, um sábado à tarde movimentado, e apesar do cansaço, estávamos felizes. Encontramos um grupo de turistas extremamente animados dançando em roda na praça em frente à ponte que tinha um ar cômico, aleatório, mas sincero.
Fiz uma breve parada pra comer um churros (porque meu autocontrole deixa meu corpo quando eu vejo churros). Ficamos descansando um pouco na entrada da ponte, tentando tirar uma foto, sem sucesso, porque o fluxo de pessoas estava absurdo. Como iríamos encontrar um amigo pra jantar, nos deixamos vencer pelo cansaço e pela conveniência e abandonamos a ideia de atravessar a ponte andando. Algo de que me arrependo hoje. Gostaria de ter feito a travessia durante a golden hour, e embora tivéssemos tentado, não houve tempo hábil para voltarmos em outro dia.
Chegar do outro lado foi um breve estresse pra nós dois; estávamos cansados, e se tem algo que testa sua capacidade mental, é a estrutura do metrô de Nova York. Pense em um negócio complicado. Mas era o que tínhamos, um Uber estava fora de cogitação. Depois de um breve momento de crise fraternal, como é de se esperar de uma viagem entre irmãos, conseguimos nos situar e chegar a uma praça de alimentação entre a Manhattan Bridge e a Brooklyn Bridge. Um lugar instagramável e agradável pra jantar.
Depois de lá, fizemos uma breve caminhada à beira do rio até o Jane’s Carousel, onde, pela primeira vez na viagem, comecei a aceitar onde estava. Sempre que algo que você deseja muito que aconteça finalmente acontece, existe um delay entre a percepção e a aceitação. Não são simultâneas.
E aqui eu comecei a ser confrontado pela magnitude do que eu estava vislumbrando. Algo que, por ter passado tanto tempo no meu horizonte, agora eu custava a acreditar que estivesse ao meu alcance. No pier do carrossel, me inclinei sobre o parapeito, respirei fundo o ar gelado da noite e encarei o horizonte que por tanto tempo almejei visitar. Lá estava ela. À noite mais imponente do que durante o dia.
A cidade que nunca dorme.
Um delineado iluminado rasgando o horizonte noturno com uma imponência que foto nenhuma seria capaz de capturar.
Admito que passei os dois primeiros dias tentando me convencer de que estava onde estava, vendo o que estava vendo. No terceiro dia, a ficha finalmente caiu, e a realidade bateu com força. No momento em que descemos da balsa no píer da Estátua da Liberdade, as palavras acabaram. Não que tenha sido o lugar de que mais gostei do roteiro, não foi.
A visão noturna de Manhattan no horizonte foi sem dúvida o ápice pra mim. Mas acho que ali, embaixo da grande estátua, com um copo de café na mão, sentindo o vento gelado no rosto, olhando o skyline mais famoso do planeta, foi difícil segurar o choro.
Então nem tentei. Deixei vir. E veio. Não parecia um momento real. Em um instante, os filmes, as séries, os documentários, as fotos… me atropelaram, e o que até aquele momento era mera sombra projetada em uma parede se tornou realidade.
A porta destrancou.
Algumas experiências excedem, em seu significado e importância, o que meras palavras podem descrever. O que de forma alguma me exime de tentar. Felizmente, algumas realizações não se materializam subsequentes ao desejo que as originou, e o breve assume um caráter quase etéreo. Digo isso porque, tal qual um prato especial que necessita de tempo embebido em molho bem temperado para que se apure o sabor, essa viagem precisou de tempo para que a apreciação de cada momento fosse exacerbada. Talvez seja só a minha opinião.