"O que você cria não precisa ser testemunhado, registrado, vendido ou encerrado em vidro para ser uma obra de arte."
O compêndio literário de Rick Rubin foi uma leitura surpreendentemente elucidativa e foi uma boa inspiração durante a concepção deste espaço. Então nada mais justo do que começar falando dele.
Durante muitos meses encarei o livro na estante do Vitor, que até me ofereceu um empréstimo, mas eu prudentemente recusei. Digo isso porque dentro de mim havia uma leve suspeita de que seria um livro que não passaria ileso das minhas marcações e anedotas.
E eu estava certo.
Aliás, duas leituras que me tiraram da inércia criativa esse ano vieram da biblioteca do Vitor. Então a ele, meu muito obrigado.
O ato criativo
A coleção de sabedorias de Rick é um deleite, especialmente se você é uma pessoa criativa.
Embora a estrutura do livro seja extremamente convidativa a uma leitura rápida, pela linguagem acessível e pelos capítulos curtos, o conteúdo em si é um ponto que não pode ser digerido de maneira displicente.
A pausa entre os capítulos foi frequente, e acredito que tenha sido o catalisador de que eu precisava pra tirar algumas ideias do papel. Inclusive este artigo.
Permeado conceitualmente pela ideia de que somos afetados por aquilo a que nos expomos, seja voluntário ou não, Rubin argumenta que somos culturalmente embasados pelo nosso meio e, logo, criar arte é nada mais do que construir um espelho que reflete abertamente aquilo que nos cerca e temos arraigado em nosso ser.
Sendo assim, cada pessoa traz em si uma interpretação de mundo única, exprimida inevitavelmente e inconfundivelmente por habilidades que ela própria escolheu desenvolver. Mostrar quem você é com a sua voz, por assim dizer, pois criar não é uma competição, é uma necessidade de autoexpressão. (E eis aqui o meu empurrão.)
Uma forma de ser
“A razão de uma obra não é a perfeição, é expressão. As falhas são humanas, e nossa atração à arte é justamente a humanidade que há nela. São as imperfeições que tornam nossa obra e cada um de nós interessantes.”
— Rick Rubin
Ler a citação acima me ajudou a simplesmente ignorar um perfeccionismo inseguro e começar a fazer o que eu queria fazer. Talvez ela soe pedante e óbvia, mas era uma percepção que eu precisava ler.
E embora eu esteja focado em um conceito de expressão artística, Rubin deixa claro que criatividade não é algo exclusivamente artístico; essa é apenas uma forma de linguagem. O que deixa o livro proveitoso independentemente de onde, quando e por que você exerça sua criatividade.
No fim do filme O curioso caso de Benjamin Button, o protagonista entrega um monólogo que pra mim arremata com primor o conceito acima:
“Algumas pessoas nascem para se sentar à beira do rio.
Algumas são atingidas por raios.
Algumas têm ouvido pra música.
Algumas são artistas.
Algumas nadam.
Algumas entendem de botões.
Algumas conhecem Shakespeare
Algumas são mães.
E algumas… dançam.”
Não existe uma forma correta; existe a sua maneira. E tenho buscado a minha através dessa pequena coletânea criativa, seja lá que forma ela venha a tomar. Como eu disse no começo, o livro de Rick foi o último empurrão, precedido em alguns meses por outro livro do Vitor que mencionarei em um artigo futuro. Então sigo tentando e buscando.
Busque a beleza que te cerca
Embora soe epifânico, acredito muito em culminações expressivas, ou seja, nada é instantâneo. A velocidade com a qual informações são expostas e compartilhadas na atualidade alterou (ou melhor, prejudicou) nossa percepção de convencionalidade. E talvez o que eu tenha gostado tanto nesse livro é que ele tenha simplesmente exposto alguns conceitos e preceitos que eu já vinha, subjetivamente, carregando comigo há alguns anos.
Digo isso não por me valorizar em excesso, mas por perceber que expresso uma amálgama de influências que carreguei durante a vida, e parafraseando o roteiro de Eric Roth para o meu cotidiano:
Algumas pessoas nasceram para conversar.
Algumas são musicistas.
Algumas têm tino pra design.
Algumas são tradutoras.
Alguns gostam de pescar.
Algumas conhecem múltiplas línguas.
Alguns são mecânicos.
Algumas são professoras.
E todas criam…
O livro me levou a reflexões bem mais sinuosas e longas do que os capítulos nele contidos, e, portanto, fica aqui a minha recomendação de leitura nesse domingo de sol como inauguração de projeto criativo que não é mérito só meu, mas de todos citados acima.
Uma boa semana e
Fiquem com Deus!