A vida além do feed

Já mencionei que A Vida Secreta de Walter Mitty é meu filme favorito, não é? Logo, se você me segue, pode esperar alguma referência de vez ou outra por aqui. Existe uma cena que apresenta um diálogo controverso entre alguns amantes de fotografia. Quando Walter encontra o famoso Sean O’Connell no topo do Himalaia e ambos vislumbram pela lente da câmera a aparição do raro leopardo-das-neves, o seguinte diálogo acontece:

Walter: “Você não vai tirar a foto?”

Sean: “Às vezes eu não tiro. Se eu gosto de um momento, eu, pessoalmente, não gosto de ter a distração da câmera. Eu só quero ficar nele. Ali.”

Eu sei, a citação se refere ao valor de estar completamente presente e experienciar a vida diretamente, em vez de experimentá-la por uma lente, um filtro ou se preocupar com a performance para os outros. É um lembrete de que algumas experiências foram feitas para serem vividas, independentemente da forma de registro.

Isso aqui não é um artigo científico.

Esse é um assunto relativamente batido. A imprudência com a qual expomos nossas vidas, rotinas e momentos íntimos ao escrutínio psicológico das redes sociais tornou o ato de compartilhar o que deveria ser excepcional em exigência cotidiana. Uma constante necessidade psicológica mascarada de inclusão, mas com sabor de dependência. A troco de quê? Microdoses de dopamina? Validação? Senso pasteurizado de realização?

Como eu disse, não é um assunto novo. Isso já foi amplamente discutido, ratificado e divulgado. Há um custo que convencionalmente escolhemos ignorar. Isso talvez seja o maior mal do nosso século, cujos sintomas só começaram a aparecer. Não sou especialista e posso estar equivocado, mas aqui vão alguns pensamentos — certamente não validados pela ciência — sobre o tema.

Pequenas privações

Eu sempre fui o tipo de pessoa que exerceu o overposting recreacional durante as férias. No momento em que eu entrava no avião, cada detalhe gravado muito provavelmente já estaria postado ao final do dia. Não há problema nisso, não de acordo com os atuais padrões sociais. Isso é aceito e intensamente incentivado, mas admito que, ao longo do último ano, esse foi um tipo de comportamento que passou a me incomodar de forma gradativa.

Refletindo sobre esse incômodo, percebo que talvez ele tenha iniciado há pouco mais de um ano, quando fui visitar minha irmã na Tunísia, onde ela morava na época. Muito do nosso turismo envolveu viagens, passeios, caminhadas, praias e acampamentos onde o sinal de telefone era algo relativamente oscilante. Somadas a isso, algumas situações contribuíram para limitar meu tempo de tela de maneira involuntária.

Primeiro, muito do nosso roteiro incluía longas viagens de carro, tendo eu como motorista designado, visto que minha irmã não dirige; logo, meu tempo de tela ficou limitado. Segundo, até aquele momento, eu tinha apenas um instrumento de captação de imagens (meu celular), então, como medida de otimização, optei por não mantê-lo com os dados móveis constantemente ligados e me limitei a acessar a internet somente quando tivesse acesso a algum Wi-Fi. Inclusive, decidi não contratar um serviço de telefonia local para poupar bateria. Como estava sempre com minha irmã, não havia nada de inseguro em ficar desconectado; em caso de emergência, ela estava sempre comigo.

Foi a primeira vez desde que adquiri um smartphone que passei longos períodos sem conexão.

Muito se fala de efeitos psicológicos e até físicos durante o que os psicólogos chamam de desintoxicação digital. Admito que essa primeira experiência não se apresentou tão desafiadora nesse sentido. Sempre conseguia, ao fim do dia, passar uma ou duas horas conectado e postando o conjunto de imagens daquele dia. Mas, dessa interrupção inesperada com o mundo digital, começou a surgir um incômodo que eu trouxe pra casa quando as férias acabaram.

Entre o feed e a FOMO

Quando se mora longe da família, principalmente em uma cidade grande, há, por imposição da vida adulta, inúmeras responsabilidades que nos ocupam o tempo e consomem nossa energia. Isso é normal.

A vida se torna uma repetição massiva de atividades obrigatórias que podem se tornar pesadas e desgastantes. E é apresentando um alívio momentâneo que o algoritmo se interpõe, suavizando o fardo do viver com vídeos estilizados, memes divertidos e feeds meticulosamente embelezados. Além disso, morar longe da família pode vir acompanhado da sensação de desconexão e ausência. Postar não é apenas entretenimento e alívio mental; é manter vivo o elo familiar, é permitir que aqueles que te amam acompanhem sua vida, é o impedimento da metamorfose do familiar para o estranho.

Por muito tempo, mantive minhas redes sociais acreditando nessa premissa. “É uma forma de me manter conectado com minha família”, eu dizia pra mim. Mas existe um preço cobrado pela nossa presença no mundo digital, preço esse que já vem sendo amplamente discutido por todo o seu impacto psicológico e nocividade emocional, principalmente sobre gerações mais jovens. Assim, sem perceber, alimentamos o autoengano de que precisamos continuar consumindo um feed sem fim a fim de nos sentirmos parte de uma realidade, e o feed que era refúgio vira masmorra.

Meu primeiro incômodo aconteceu cerca de uma semana depois de voltar ao Brasil, quando, no retomar da rotina, senti o vazio de uma vida “desinteressante” me castigar com angústia ao sentir cessarem as curtidas e os directs que duas semanas antes me enchiam de satisfação.

Tive uma dificuldade tremenda em desfrutar da minha vida apesar de ter acabado de viver uma das melhores experiências de viagem da minha vida (sem exagero). E aí comecei a perceber que algo estava errado. Digo isso porque, objetivamente, não havia nada de errado com a minha vida, e embora eu repetisse isso pra mim mesmo, razão e emoção não conseguiam concordar.

E, na esperança de amenizar a sensação de vazio, mais tempo eu passava rolando o feed, inutilmente. Quanto mais tempo eu passava online, menos satisfeito me sentia. Via vídeos e fotos de amigos vivendo seus momentos extraordinários e me sentia insatisfeito com minha vida, com a mente obnubilada. Um ciclo vicioso que me drenava um absurdo de energia emocional e mental.

A partir desse momento, comecei a questionar seriamente a necessidade de manter uma presença online. Admito (tardiamente) que minha saúde mental sofreu bastante com a constante síndrome de comparação à qual somos todos, sem exceção, expostos quando passamos muito tempo como espectadores constantes da vida dos outros no mundo digital.

Sob a premissa de estar “presente”, adoeci emocionalmente, fragmentei minha atenção e perdi o senso de valor da minha própria vida. Perder essa certeza é algo que considero extremamente perigoso, principalmente quando se vive sozinho. E, após alguns episódios intensos, que só posso classificar como clinicamente depressivos, resolvi tomar algumas medidas que me ajudaram a recuperar a noção de realidade.

Como medida principal, comecei a inserir alguns atritos. Fiz um jejum de 90 dias sem redes sociais, o que ajudou bastante, mas não resolveu o problema por completo. Apesar disso, não considerei esse primeiro teste um fracasso. Percebi outros pontos de atenção que havia ignorado. O esgotamento mental e a concentração fragmentada foram os primeiros a desaparecer, seguidos de alguns outros benefícios que não cabem discutir agora e talvez eu traga em outro momento.

Acho válido reafirmar o óbvio:


O feed não é um reflexo preciso da nossa realidade, embora nos diga muito sobre ela.


Rituais esquecidos

Vivemos em um momento em que só o que é postado, curtido e compartilhado tem algum valor. Isso não poderia estar mais longe da realidade.

Alguns meses atrás pude viajar pra Manaus e aproveitar alguns momentos muito aguardados com meus pais. E, durante a viagem, experimentamos um momento que não compartilhávamos há pelo menos uma década. Sentamos pra olhar álbuns fotográficos.

Embora tenhamos compartilhado muitos momentos felizes e cheios de cumplicidade nessa última viagem, enquanto observava meu pai folhear os inúmeros álbuns de fotografia, percebi algo valioso: eram mais que imagens, eram memórias.

E qual a diferença entre uma caixa de fotos e um feed de Instagram?

Fotos são fotos, certo?

Talvez em um sentido mais material, sim. Mas não no essencial. Sentar ao lado do meu pai, abrir um álbum empoeirado, olhar fotografias (algumas com mais de 40 anos), ouvir ele contar as histórias envolvendo as fotos, as situações e as pessoas ali eternizadas em memórias de papel e tinta sem o ruído de notificações teve um peso catártico e especial.

Observando isso, enquanto eu o ouvia, percebi quão distantes estamos do sentido real de uma “rede social”. Hoje substituímos a substância moral de uma experiência coletiva pela validação mascarada de compartilhamento; pelo menos, foi assim que me senti.

Talvez eu esteja ficando velho. É uma possibilidade.

Naquele momento, percebi que a minha presença em uma “rede social” não fazia mais sentido pra mim. Então tomei a decisão de seguir o controverso conselho de Sean O’Connell, com o perdão da paráfrase.

Mais vale o momento vivido e apreciado ao lado de quem realmente importa, pois é libertador experimentar a ideia de que existe vida além do feed.

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Uma boa leitura