“Uma vida feliz não significa uma alegria ininterrupta, mas uma grande coleção de pequenos momentos felizes.”
— Rafhael Basílio
Um aspecto de que eu gosto bastante relacionado à fotografia com filme é a sensação de cápsula do tempo. O laboratório que utilizo geralmente leva uma semana para a revelação, o escaneamento e o envio das imagens. Então, existe um período entre tirar as fotos e vê-las prontas que cria um efeito de antecipação de que eu curto bastante. Receber o e-mail do laboratório fotográfico informando que seus filmes estão prontos dá sempre um frio na barriga porque, apesar de você lembrar onde fez as fotografias, nunca sabe exatamente o que vai encontrar. E, mesmo que você lembre, sempre tem uma foto ou outra que te surpreende.
Essa semana recebi um rolo que me deixou bastante feliz, não exatamente pela qualidade das fotos em si, mas pelos momentos registrados em específico. E esse é um outro aspecto que incluo como benéfico na fotografia analógica, por mais romântica que a frase soe: as fotos não parecem registros, parecem lembranças. E, no último mês, tive mais que um punhado de boas lembranças.
Cafés, retratos e resenhas
São Paulo não é uma cidade de meios-termos, pelo menos não entre meus amigos. Há quem odeie e tolere; há quem ame e se encante. Percepções em proporções hemisféricas. Como nada na vida é absoluto, eu tendo a conceder razão aos dois grupos; há o bom, o mau e o feio. Embora eu definitivamente me inclua no segundo grupo, preciso admitir que cada lado teve seu grau de ensinamento.
O acinzentado ar paulistano pode muito facilmente causar uma sensação claustrofóbica e extenuante. Do céu aos edifícios, dos edifícios às calçadas e das calçadas às pessoas, há uma energia densa que pode levar a um desgaste emocional perene. É muito fácil se deixar levar pelo frenesi urbano e não se permitir cultivar certos momentos de descanso sem alguma culpa, quando até momentos de descontração em grupo exigem um planejamento de natureza matrimonial, com data, horário, tempo de percurso e orçamento predeterminado.
É uma adaptação que exige esforço e, convenhamos, esforço é algo que todos nós evitamos, mas que, uma vez realizado, vale muito a pena. Aprendi isso com algum custo. Como antídoto, tenho tirado algumas tardes por semana para perambular pelo centro de São Paulo e me permitido descobrir lugares novos, sem pesquisa prévia, para curtir uma tarde tranquila em meio ao caos da rotina. Graças a Deus, fui abençoado com mais do que alguns aconchegos em 2026.
Digo isso porque tenho tido a oportunidade não apenas de explorar a cidade da melhor maneira possível (a pé), como também de compartilhar esses lugares com pessoas queridas. Entre elas, Vitor e Rafha. Ter a oportunidade de voltar a compartilhar o mesmo CEP com amigos de infância é uma bênção que eu não estava esperando para esse ano. Li em algum lugar, quando ainda tinha Instagram, que “homens que socializam com amigos pelo menos uma vez por semana tendem a ter níveis de cortisol mais baixos e vivem mais”. Se é verdade, eu não sei, mas, tendo sido beneficiado por isso, posso afirmar sem rodeios que sim.
Houve um tempo nas nossas vidas em que era muito improvável que não nos encontrássemos durante a semana e praticamente impossível que não nos encontrássemos aos finais de semana.
Mas a vida tem seus caminhos, e cada um segue por um. O que era diário se torna semanal, o que era semanal passa a ser mensal, o que era mensal passa a ser bimestral e o que era bimestral passa a ser anual. Eu acho que um risco inerente ao ser humano é o de trivializar o que é temporal, tomando por eterno o que muitas vezes é efêmero. Faz parte; é algo que muitas vezes acontece imperceptivelmente e, quando menos esperamos, certos encontros já não acontecem com tanta frequência e facilidade; o habitual se torna eventual.
Assim é a vida.
Hoje, por obra do divino, estamos na mesma cidade mais uma vez e, neste último mês, tiramos muito proveito disso. A Galeria Metrópole acabou se tornando nossa interseção programada semanal: um lugar com comida boa, sem muito barulho e, o mais importante, com lugar para sentar.
Nossos encontros geralmente seguem um roteiro específico: a ausência de roteiro. Que vai de uma pequena reclamação sobre o chefe ou aquele colega de trabalho chato até uma discussão sobre a imortalidade da alma dos animais domésticos segundo premissas esotéricas, cristãs, agnósticas e budistas (isso sem nenhuma gota de álcool). Então, com uma pequena variação de horário, nossas tardes de quintas-feiras têm sido reservadas para encontros de prosa longa, onde se aprecia um bom café, se desabafa insatisfações profissionais, se compartilham hobbies caros, se trocam conselhos de como se tornar um milionário e se discute filosoficamente o sentido da vida.
Você sabe… nada muito extravagante.
Algo que me conforta muito ao sentar em uma mesa com velhos amigos é perceber que, por mais que tudo tenha mudado, da barriga mais larga à coluna mais cansada, ainda somos os mesmos.
Aconchegos cotidianos
Daniel Milnor costuma dizer que toda família precisa de um documentarista, e acho que tenho conseguido, aos poucos, fazer jus ao manto herdado de Maria Luciene. Tenho tentado, encontro após encontro, registrar com carinho esses pequenos momentos. Durante algum tempo, fui vítima do isolamento involuntário que a cidade de São Paulo impõe a seus moradores. Reencontrar velhos amigos e restabelecer velhas rotinas chegam aos meus olhos como uma sutil bênção divina. E eu pretendo aproveitá-la ao máximo pelo tempo que ela estiver disponível.
Nem todas as fotos estão no melhor foco, com a melhor luz ou com clara nitidez, porque esse não é o ponto. Como eu gosto de dizer para contrariar o Vitor: não sou fotógrafo. O ponto, se houver um, é que, se o Rafhael tiver razão, a gente realmente não tem do que reclamar.
Apesar do cinza de São Paulo, setembro trouxe bons dias de céu azul, em cafeterias, em almoços de sábado e em treinos de pescaria fora da água. E minha galeria começa a se formar, dia após dia, um pequeno caleidoscópio particular.