É bem curioso como tendemos a desvalorizar e pormenorizar algumas coisas enquanto as temos em abundância. A versão filosófica dessa frase foi escrita algum tempo atrás por um alemão cheio de simpatia chamado Schopenhauer.
“A vida é uma constante oscilação entre a ânsia de ter e o tédio de possuir”
- Arthur Schopenhauer
A ideia de que tendemos a uma existência pendular entre a busca incessante pela conquista iminente e o enfado anestesiante do objetivo alcançado é algo que predomina sorrateiramente em alguns aspectos da vida moderna. Algo que eu carinhosamente gosto de chamar de “O dilema da piscina”. Quem não tem uma em casa gostaria de ter e quem tem raramente usa. Eu queria evitar isso. E posso admitir que tenho sido bem-sucedido.
Conhecer as manhas e as manhãs
Quando me mudei pra São Paulo, comecei a desenvolver um hábito que Manaus, por questões climáticas, não me permitia: o deslocamento a pé. Parece bizarro, mas tentar fazer longos trajetos a pé em Manaus é uma questão de alto risco sanitário (e de segurança dependendo do trajeto). De dia, impossível. De noite, arriscado. Mas aqui, o clima mais ameno me permitiu essa prática semanal, inicialmente pra ir ou voltar do trabalho, posteriormente, como simples passatempo pra quebrar o enclausuramento pessoal. Depois da compra da minha câmera, virou costume.
Andar pelo centro se tornou meio que um passatempo meu. Nos meus dias de folga, gosto de levantar cedo, preparar uma garrafa de café, entrar no metrô e seguir rumo ao centro histórico com minha câmera na mão. Existe um valor subestimado no turismo pedestre, algo que aprendi a valorizar mais durante viagens. Tirar tempo pra caminhar te expõe a certos aspectos que nenhum checklist turístico te entrega. Algo que aprendi com minha irmã. Vamos andar e simplesmente curtir.
Na última semana, tentei seguir meu roteiro habitual: gosto de descer na estação do Anhangabaú, atravessar o viaduto do Chá, percorrer o vale até o Farol Santander e voltar até encontrar a esquina da Ipiranga e da Av. São João. Esse é o meu roteiro curto para os dias em que estou muito cansado ou sem muito tempo de sobra.
Por mais curta que seja a distância, comigo esse percurso pode levar algumas horas. Ziguezaguear pelo centro sem rumo certo é algo que eu particularmente acho extremamente proveitoso. Eu admito, gosto daqui. Existe um quê de beleza nas imensas avenidas cercadas por edifícios históricos inundadas de caos humano e árvores altas que formam um contraste cativante.
Mesmo com ruas movimentadas, o vale ainda aparentava uma certa quietude e ausência de pessoas, ainda despertando com a luz da manhã que permeava os prédios e as fachadas. Felizmente, o mau tempo deu trégua, a luz da manhã favoreceu e eu consegui arriscar algumas fotografias.
Poesia concreta, deselegância discreta
Existe um conjunto de ruas entre o Teatro Municipal e a Praça da República que eu particularmente gosto bastante. São ruas exclusivas pra pedestres com inúmeros bancos, lojas, restaurantes e botecos que exalam em uma grande amostra a energia a qual me refiro. Você vê moradores de rua, policiais, crianças brincando, gente brigando, garis trabalhando. Uma amálgama de metropole moderna com um certo ar imponente de passado.
É curioso como o centro tem uma infinidade de aglomerados arbóreos que não desapontam, esse é um contraste aconchegante. A praça dom José Gaspar em frente à galeria é um deles. Um bolsão verde escondido contrapondo o ritmo caótico de uma cidade incessante. Um conjunto de lembretes singelos que mostram que São Paulo ainda tem sim, bastante cor.
Sentar em uma praça sem pressa enquanto se toma um café com calma é algo que tem seu valor. Tem sido um bom lembrete de que nem sempre é preciso viajar pra encontrar cenas e lugares interessantes. Às vezes a gente só precisa se propor a caminhar por ladrilhos coloridos e apreciar a vista sem necessariamente ter que chegar em algum lugar.