Pequenas bibliotecas

Semana passada minha irmã me fez uma pergunta que eu admito ter uma dificuldade além do normal de responder: “Qual teu livro favorito?”

Isso é lá pergunta que se faça logo de manhã?!

Talvez existam pessoas que tenham essa resposta na ponta da língua e, sem dificuldade, discorram sobre uma obra, autor, impacto pessoal, etc. Eu não sou uma delas.

Houve um tempo em minha vida em que eu não lia; como todo bom brasileiro, a leitura não era vista como passatempo. Leitura era obrigação pedagógica. Isso acabou me afastando por bastante tempo do hábito de ler.

Em casa, minha mãe lia livros relacionados ao trabalho e meu pai não era um leitor tão dedicado, o que acabou me influenciando a buscar entretenimento em outros meios, principalmente com cinema, que é um tópico que aprendi há muito tempo a manter sob vigilância. Se você quer conversar sobre cinema, eu posso fazer isso por horas. Então cuidado, eu não tenho autocontrole.

Mas meu relacionamento com a leitura foi algo relativamente tardio; até meus 27 anos, eu devo ter lido pouco mais de dois livros por ano, se muito. Olhando pra trás, é triste, mas o que está feito está feito. E aqui me refiro especificamente à leitura como forma de entretenimento, porque eu sempre li bastante, pra escola, pro cursinho, pra faculdade, etc. Mas nunca foi algo prazeroso até pouco tempo atrás.

Eu sei que existem problemas mais sérios no mundo além do meu pseudoanalfabetismo funcional, mas a pergunta da minha irmã me deixou bem reflexivo.

Novo capítulo

Curiosamente, acabei alterando esse comportamento durante a pandemia. Por sugestão de um amigo, comprei um Kindle, pra facilitar a leitura principalmente nos momentos de ócio do plantão. E, pela portabilidade gigante do dispositivo, acabei criando um hábito intelectualmente nutritivo: microsessões diárias de leitura.

O primeiro livro que li que impulsionou o início da jornada foi nada mais, nada menos que Harry Potter. Não sou particularmente um fã da série, nem dos livros, nem dos filmes. Mas, uma vez que li o primeiro, não sosseguei até ler todos. Nesse aspecto, ponto para Grifinória. Li Harry Potter e a Pedra Filosofal em um único dia.

A partir daí, o Kindle se pagou em três meses. Comecei a ler basicamente um livro (curto) por semana. O hábito estava sendo sedimentado. O resultado? Nos últimos três anos, eu li aproximadamente 38 livros, basicamente um a cada duas semanas. Algo que sinceramente me surpreendeu.

Apesar de a leitura ser algo que não me agradava, eu cresci com acesso a um conjunto de pequenas bibliotecas. Em casa, tínhamos muitos livros, mas eu não os encarava como algo a ser explorado, e sim como algo a ser evitado. Mas dois outros lugares que eu frequentava bastante acabaram moldando meu atual consumo literário.

O primeiro era a casa do tio Davi e da tia Luciene, que tinham um cômodo exclusivo pra livros, e o segundo, a casa do Rafhael, que tinha um escritório com uma parede inteira coberta de livros. Tão robustamente coberta que, quando o Rafha precisou se hospedar no quarto por algumas semanas, quase foi obliterado por uma estante de livros, quando, por conta do peso dos livros, a parede cedeu e todos os livros penderam pra cima da cama dele.

Sempre achei o máximo ter um estúdio/biblioteca em casa, uma toca de hobbit, por assim dizer, e é uma meta de vida minha ter uma em casa.

Ao longo dos anos, inconscientemente (e meio que inconsequentemente também), fui construindo minha própria biblioteca, sem imaginar que existia uma palavra japonesa relacionada a esse hábito.

Existe um termo em japonês que, assim como os alemães, que parecem ter uma palavra pra tudo, é conhecido como tsundoku: a filosofia dos livros não lidos. Os livros que você adquire não são acúmulo, e sim a promessa da descoberta de novos mundos, novas histórias e novas conversas. Romântico, né? Mas é bem reconfortante pra mim e uma eterna desculpa pra continuar comprando livros.

“Existem dois prazeres de todo leitor: o de ler o livro e o de comprar o livro.”

— Jô Soares

Quando a Adria me fez a fatídica pergunta que deu origem a esse longo devaneio, a primeira coisa que fiz foi encarar minha pequena biblioteca, que honestamente é um nome exagerado pra minha humilde estante cheia de livros. Uma tentativa inconsciente de reproduzir os pequenos cômodos da minha infância, talvez? Quem sabe.

(Com)Textos

Infelizmente, eu não consigo estipular qual seria meu livro favorito, então segue aqui a resposta que dei pra minha irmã mencionando os 5 que mais rápido vieram à mente:

  • Duna, Frank Herbert

  • Os miseráveis, Victor Hugo

  • Odisseia, Homero

  • O silêncio dos inocentes, Thomas Harris

  • Os homens que não amavam as mulheres, Stieg Larsson

De todos os que li nos últimos seis anos, esses foram os que mais deixaram uma boa impressão. Histórias densas com tramas e personagens complexos são algo de que eu gosto muito. Atualmente, estou relendo Duna, pra me preparar pro encerramento da trilogia de Denis Villeneuve, que estreia em dezembro.

Pra um menino que não gostava de ler, acho que tem sido uma boa jornada. Uma infinidade de histórias e mundos concentrados em uma pequena biblioteca particular.

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