Ohana

A porta abriu devagar logo pela manhã. Minha irmã espiou pela fresta e me perguntou:

— E aí? Acordado?

— Ainda não — respondi com a voz sonolenta.

A noite tinha sido curta, entre buscá-la no aeroporto, devolver o carro pro Vitor e voltar pra casa. E o dia prometia ser mais curto ainda.

Nossos pais chegariam em algumas horas, o que nos apresentava uma janela de tempo curta para organizar as coisas da minha irmã antes da segunda cerimônia de abertura de bagagem pós-viagem, que, como vocês sabem, é um pequeno ritual de caos controlado (ou não).

Geralmente, vejo meus pais duas vezes por ano: uma vez quando viajo pra Manaus e outra quando eles viajam pra São Paulo. Por obra do destino, Adria e meus pais chegaram com uma pequena diferença de horas entre si.

Ímãs e canecas

É engraçado como depois de algum tempo, ou melhor, de uma certa idade, qualquer pessoa desenvolve inadvertidamente seu próprio repertório de manias que carinhosamente chamamos de rotina. E na semana passada o meu repertório sofreu uma série de disrupções cômicas e aleatórias.

Talvez a primeira, após a Adria abrir a mala dela, tenha sido a inconcebível quantidade de ímãs de geladeira que alguém possa possuir e que possam ser armazenados em uma mala. Eu tenho minhas canecas, minha irmã, aparentemente, ímãs de geladeira. Quando ela me perguntou se podia colocar os ímãs na porta da geladeira, eu subestimei gigantemente a quantidade de itens. Não imaginei a reestruturação visual que vi ao sair do meu quarto naquela manhã. Adria coleciona um ímã pra cada país ou cidade que visitou, e a julgar pela nova decoração da nossa geladeira, ela viajou um bocado.

Uma mala aqui, outra ali, um punhado de roupas jogadas ali, outra sacola aqui. Presentes de despedida em cima da mesa, guloseimas exóticas na bancada da cozinha. A sexta-feira começava agitada. Antes que conseguíssemos ter algum senso de organização do que vai aonde, o telefone toca: “Estamos a caminho, já pegamos o táxi.”

Não vai ter tempo de organizar tudo antes de eles chegarem. Pensei eu.

Corre daqui, puxa dali. Guarda isso aqui, depois a gente vê. O interfone toca. Chegaram. O apartamento transbordou. Mais gente de um lado, mais malas de outro. A caixa de gelo cheia de peixe, açaí e tucumã. Tem coisa pra pôr na geladeira. Precisamos de espaço.

— Tira isso dali, põe ali em cima

— Coloca ali embaixo

— Encaixa com aquele outro

— Tira isso daí

— Onde eu ponho isso?

Meu Deus, isso não vai dar certo.

— Precisamos arrumar essa cozinha

— Então vamos

Tira tudo, espalha tudo. Põe de volta. Melhor aqui. Um tropeço aqui, um esbarrão ali.

— Esse apartamento parecia maior

— Vamos comer o quê?

— Pede um ifood

Deu pra sentir, né?

Vasos, meias & cuecas

Depois de um almoço rápido, retomamos a arrumação e, antes que conseguíssemos ter algum senso de organização do que vai aonde, o telefone toca: “Encomenda pro Sr.”

Nosso sofá chegou. O que foi uma excelente surpresa. Isso porque a entrega só estava prevista pra novembro. O problema era como colocar dentro do apartamento. “Abre espaço, tem que desempacotar o sofá”

No meio do puxa-e-empurra, um estalo abafado ecoa no meio da sala. Quando levantamos a cabeça, a terra cobre o chão, cacos de barro pra todos os lados. Pra quem não sabe, eu e Adria temos uma tradição só nossa. Toda vez que DriDri vem me visitar, ela quebra um vaso meu. Um pequeno cerimonial informal pra sinalizar uma estadia de sucesso.

No meio disso tudo, Adria me entrega um embrulho, uma lembrança que também virou tradição: minha caneca Starbucks (tenho uma de cada país que ela visitou) vinda da Itália. Desenrolo o embrulho e, pra minha surpresa, há uma xícara preenchida por um par de meias e uma cueca misteriosa que, após uma breve investigação, teve seu dono encontrado. Eu só queria que elas não estivessem usadas, mas o lado bom é que a xícara chegou inteira e isso é o que importa.

Apesar da bagunça inicial, demos conta de quase tudo. Aos poucos, a gente vai aprumando. A casa cheia tem rendido ótimas conversas, muitas risadas e a cota esperada de implicâncias entre Dilsão e Dridri.

A correria é grande, mas vou tentando manter vocês atualizados à medida que as semanas forem passando. É bom ver que o pequeno apartamento em tom pastel ganhou mais cor, sabor e textura.

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