Fazia frio naquela manhã. Mesmo dentro do avião era possível sentir a diferença de temperatura. Me espreguiçei no minúsculo espaço da minha poltrona, despertei olhando para os lados tentando me situar sem chamar atenção, olhei por cima da fileira da frente pra checar o movimento nos corredores.
Algumas janelas abertas, algumas luzes acesas, algumas pessoas levantando para ir ao banheiro. Abri a persiana da janela; o céu se encontrava em um pálido azul esvanecendo em tons amarelados à medida que avançávamos e o dia clareava.
Chequei o relógio: “6h”. Ainda restavam quase duas horas de voo.
Até aquele momento, era o voo mais longo que eu já tinha experimentado e a ansiedade estava acumulada em um nível tal que ter conseguido dormir foi uma surpresa agradável. Digo isso sem o mínimo exagero. Pra mim não era o fim de um traslado aéreo de 8h; era a conclusão de um sonho que demorou 10 anos pra acontecer.
E não havia entretenimento nenhum que fosse capaz de me distrair naquele momento.
O fim de uma espera
Encarar esse skyline foi por muitos anos (sim, anos) um sonho meu e da minha irmã. Ao nos encontrarmos no aeroporto, havia tanto peso na atmosfera que foi difícil expressar com exatidão o que sentíamos. Então fingimos costume como se fosse uma sexta-feira qualquer e tivéssemos nos encontrado há poucos dias. Fizemos o check-in em nossa hospedagem, organizamos a bagagem, pegamos um café e saímos porta afora. Essa não era uma viagem de descanso.
E sim, de muitos clichês turísticos.
Chegamos em NY na última sexta-feira de novembro, o que significa a interseção de dois acontecimentos corriqueiros, um relevante e outro desimportante (qual é qual fica a seu critério): Black Friday e o início do inverno. Antes da nossa primeira parada, resolvemos experimentar a fundo a cultura local e exercer com total empolgação o hábito mais contemporâneo e homogêneo da nação americana: fomos às compras.
Se você achou que é algo fútil fazer compras em uma Black Friday no país mais capitalista do planeta, você achou errado. É basicamente um experimento antropológico, e mesmo que fazer compras não seja algo que te agrade (como a mim), recomendo a experiência. Pode ser algo absurdamente esclarecedor.
Estressante, mas esclarecedor.
Painéis coloridos, luvas roubadas e Hot-dogs suspeitos.
Passadas as compras, nos dirigimos ao primeiro ponto turístico do roteiro: a Times Square. Em uma descrição simplória, ela pode até soar sem graça. Mas vamos lá, pensando objetivamente, qual a graça de uma rua com inúmeros outdoors coloridos, pessoas abarrotadas, barulho de buzinas, sirenes e vendedores ambulantes?
Eu não sei. Mas tem graça.
Você sai do metrô e é arrastado por um fluxo interminável de gente. Quando você consegue sair do rio humano que te carrega e encontra um canto de parede pra tentar se localizar, você é assolado por um vento gelado que faz com que pegar o celular pra pesquisar uma coordenada ou tirar uma foto se torne uma atitude precedida de extrema ponderação.
Ponderação, inclusive, que eu gostaria que minha irmã tivesse tido antes de roubar as minhas luvas porque ela havia subestimado a previsão do tempo. E como o bom irmão que sou, cedi as luvas (sim, coloquei a modéstia no bolso junto com minhas mãos geladas).
Depois do atropelamento sensitivo, paramos em uma esquina e tentamos, por alguns minutos, contemplar o que víamos, ouvíamos e sentíamos. Que no momento, além de frio, era fome. Então resolvi matar um sonho e uma vontade ao mesmo tempo: comer um hot dog de um carrinho de rua na Times Square. E antecipando suas próximas perguntas:
Sim, é só pão e salsicha.
Sim, é gostoso.
Não, não perguntei a origem da carne.
O segredo pra ser feliz com comida de rua é não questionar a comida de rua. Algumas coisas na vida são pra serem sentidas.
Vontade resolvida, começamos a andar e eu lembro de ter pensado “de onde é que vem tanta gente?”. Eram 23h, com um vento absurdo a 2°C, e o horizonte estava repleto de gente pra qualquer lado da rua que você olhasse. Estar no meio da avenida mais famosa do planeta foi um excelente começo de viagem.
Pode só parecer um monte de painéis coloridos, mas é um clichê turístico que vale a pena. Principalmente se você for à noite.
Coisa de cinema
Eu acho que eu assisti a filmes demais durante minha adolescência. Pelo menos mais do que seria saudável pra um jovem rapaz. Em muitos deles, a cidade não era um mero pano de fundo; era o que, de certa forma, costurava o enredo, tornando-se, em si, um coadjuvante ignorável, invisível e silencioso. Mas onipresente.
Quando se chega a Nova York, sente-se a presença. Barulhenta, visível e (pra se dizer o mínimo) memorável. A sensação é de um déjà-vu insistente. Dos prédios gigantescos aos copos de café, a sensação de familiaridade é inegável, palpável.
Pra mim, me imaginar de maneira jocosa em um filme ou uma série foi inevitável, como se em cada esquina e em cada paisagem eu estivesse encontrando, ou melhor, reencontrando um personagem por mim há muito conhecido. Foi assim na Times Square e foi assim voltando pro hostel.
Pegar o metrô também foi uma experiência interessante. O primeiro ponto é que muitas estações são extremamente antigas, e depois de certa hora da noite, tudo fica um tanto deserto. O que pode, contribuir pra certa apreensão. Ok. Estávamos voltando pra hospedagem por volta da 01h da manhã e, embora fosse uma sexta-feira movimentada, a sensação de estarmos participando de um epílogo de um suspense psicológico me passou pela cabeça por alguns segundos.
Entramos na estação por uma escada com detalhes de ferro enferrujados, com paredes de azulejos brancos há muito encardidos, passamos pela catraca metálica extremamente barulhenta até chegarmos a uma plataforma com pouca gente que se abria para um vazio de linhas metroviárias paralelas onde se ouviam ao longe os sons de atritos metálicos e se viam luzes de luminosidade oscilante sob um vento gélido e constante mesmo abaixo do nível da rua. Um conjunto de sensações que me fez sentir em um filme do David Fincher. Sem exagero.
Nós nos dirigimos ao Brooklyn e caminhamos por dois quarteirões até o hostel. Ao longe, o claro skyline nova-iorquino. Na calçada à frente, nenhuma alma viva em dois quarteirões mal iluminados.
Viver em uma metrópole, no meu caso, São Paulo, te obriga a viver sob certo nível constante de vigilância. Minha estratégia sempre foi: na rua sozinho? Sem fones de ouvido. Olhe sempre pra todos os lados, mantenha a cara fechada e ande rápido.
Mesmo tendo sido algo que nos deixou apreensivos, olho pra trás como algo bom. Toda experiência é válida quando se está viajando. Tanto o que te conforta quanto o que te aflige.
Chegamos a salvo no hostel, tomamos um merecido banho quente e fomos pra cama.
Estávamos em NY. Não parecia real. Parecia apenas mais uma cena de cinema.