Acontece nos filmes…

O ano era 2001, a vida era mais simples. Havia o colégio, as tardes livres, brincadeiras na rua, desenhos no chão da sala de casa, tardes lentas. Uma outra vida, em outra frequência.

Lembro que um dia meu pai foi me buscar na minha aula de inglês, e enquanto estávamos no carro, ele disse: “Tenho uma surpresa quando você chegar em casa: agora teremos TV a cabo.”

Eu sei que não parece muita coisa hoje em dia, mas na minha época, eu tinha tempo de tela bem delimitado, e quando usava, não era pra assistir ao que eu queria. Diferente de hoje, em que a escolha depende apenas de nós conforme nossa preferência, naquela época eu assistia ao que estivesse passando. Filmes? Só se eu alugasse em uma locadora física. Desenhos? Apenas nas férias porque eles só eram transmitidos de manhã, quando eu geralmente estava em aula.

Ouvir do meu pai que agora teríamos um suprimento ilimitado de conteúdo que poderia ser usado da forma que eu quisesse (dentro do que era permitido a uma criança de 9 anos, obviamente) foi um divisor de águas pra mim. Agora eu podia olhar o guia impresso e saber quando assistir ao filme ou ao desenho que eu queria assistir. Era maravilhoso.

Talvez soe simplório e engraçado. Mas foi um acontecimento que me marcou. Agora uma janela se abria pra mim e eu podia enxergar mundos novos.

O primeiro canal que me enlaçou foi o clássico Cartoon Network(obviamente, eu tinha 9 anos) e o segundo foi o canal de filmes TNT.Neste, principalmente aos fins de semana, gastava horas assistindo filmes, às vezes sozinho, às vezes em companhia de meu pai. E a TNT tinha um slogan curioso: “Acontece nos filmes, acontece na vida… acontece na TNT.”

Sempre gostei desse slogan nos comerciais bem produzidos do canal, mas hoje, refletindo sobre minhas influências e sobre o que gosto de explorar artisticamente, acredito que ele tenha tido um impacto muito grande na minha mentalidade como consumidor de cinema.

O cinema é antes de mais nada uma forma de entretenimento. Um meio que nos transporta do momento presente e nos alivia do peso da realidade. Eu sei que talvez eu soe hiperbólico ou talvez você tenha a impressão de que minha vida era extremamente difícil e livre de diversões. Não era o caso. Graças a Deus, tive uma infância bem comum. Um privilégio. Mesmo assim, sempre me senti muito tocado pelo cinema e sempre ansiei com muito afinco os fins de semana, quando, aos sábados à noite, meu pai colocava a minha irmã e a mim no carro e nos levava para a locadora do bairro, onde passávamos cerca de 1h passeando pelos corredores de fitas VHS e, posteriormente, de DVDs, tentando usar o máximo da nossa experiência para escolher com sabedoria.

Quando a arte imita a vida

A implicação filosófica levantada por Aristóteles, reproduzida através dos séculos, traz de maneira simples a premissa de que o que assistimos na tela pode ou poderia nos influenciar a um ponto em que ações e comportamentos podem vir a acontecer na realidade, por mais absurdas e exageradas que muitas cenas possam parecer. E em alguns casos, o filme é o produto de um acontecimento real, que, por sua exclusividade, seja ela triste ou alegre, mereceu ser eternizado em película.

Esse conceito de que o abstrato se constrói em realidade acabou se sedimentando em mim. Passei a absorver de forma consistente pensamentos, filosofias e aforismos cinematográficos que foram moldando meu comportamento adolescente e até minha personalidade. Do ponto de vista psicológico, faz completo sentido, somos fruto do meio e tendemos a reproduzir aquilo a que somos constantemente expostos.

Assim, cresci como um ávido consumidor da sétima arte, de desenhos animados a franquias de ação, sempre que sentava em frente a uma tela, procurava me perguntar:

“Qual a mensagem que essa história quer me passar?”

“O que posso aprender com a jornada desse personagem?”

“Se isso acontecer comigo, posso me comportar assim?”

Quer fosse em uma sala de cinema ou em uma televisão de 14 polegadas, sempre que um filme começava, eu entrava em um estado de hiperfoco e me permitia ser transportado para outra realidade. O que a maioria dos leitores sente quando pega um livro, eu sinto sentado em frente a uma tela de cinema.

Acredito que neste ponto, você já tenha percebido que gosto de cinema e que filmes são pra mim mais que uma expressão artística; são uma forma segura de expressão emocional.

A vida secreta de Adilson Junior

A Vida Secreta de Walter Mitty, dirigido e estrelado por Ben Stiller, é sem equívoco meu filme favorito. Esse é um filme do qual eu posso falar por dias inteiros ininterruptamente sem me cansar, então vou fazer um esforço gigantesco pra resumi-lo pra você.

Walter Mitty é um homem comum e tímido que trabalha gerenciando negativos fotográficos na revista Life. Para escapar da sua rotina monótona e frustrante, ele se refugia em um mundo de devaneios heroicos. Sua história secreta é, na verdade, uma jornada de autodescoberta: ao perder um negativo crucial, ele viaja pelo mundo para encontrá-lo, transformando seus sonhos em realidade e descobrindo a coragem de viver o presente.

A obra original, um conto de James Thurber publicado na The New Yorker em 1939, explora o escapismo de um homem de meia-idade oprimido pelas convenções e ordens da esposa, enquanto a famosa adaptação cinematográfica de 2013, dirigida e estrelada por Ben Stiller, foca na transformação pessoal e na superação da timidez.

(Começa a perceber o porquê de ele ter tido um impacto tão grande em mim?)

A identificação com Walter foi instantânea. O homem tímido, preso em devaneios, que, apesar do que todos pensam, é muito mais do que aparenta ser. Tudo o que ele precisava era de um pequeno empurrão, no caso de Walter, a perda do negativo 25. No meu caso, o próprio filme.

Embora seja um filme de muitas camadas e com muitas boas lições, ver a jornada de autodescoberta desse personagem me incitou a iniciar a minha, talvez não em um termo prático. Eu não coloquei minhas coisas em uma mochila e fui pro Himalaia. Mas percebi que muito do que eu fazia não fazia por mim, fazia para cumprir expectativas alheias, e isso me mantinha não apenas descontente, mas encolhido perante a vida.

Assim como Walter, me senti compelido a sair em busca de contentamento, e a fazer da minha vida algo que fosse a manifestação do lema da revista Life:

“Ver o mundo, coisas perigosas de se aproximar, ver por trás dos muros, encontrar o outro e sentir. Esse é o propósito da vida.”

O que me intriga muito nesse lema é que ele pode ser interpretado, a grosso modo, em dois aspectos diferentes. O primeiro, mais geral, é que ele nos compele a viver uma vida de aventura e busca do extraordinário, tendo influenciado toda uma geração hipster a viver para conhecer o mundo porque a vida é aqui e agora. E não tenho nada contra isso, se você tem meios para fazer isso acontecer, que bom.

Mas gosto muito da segunda interpretação. Se tomarmos os verbos da frase completa:

ver, aproximar, encontrar e sentir,

perceberemos que não precisamos nadar com tubarões ou escalar montanhas para encontrar nossa completude. Basta olhar em volta.

Se tomarmos tempo para observar, nosso cotidiano está repleto de oportunidades para uma vida cheia de beleza e até aventura.


“A quantidade de coisas bela na sua vida,

depende apenas da sua capacidade de percebê-las.”


Um dos momentos mais tocantes do filme ocorre quando Walter encontra o fotógrafo no topo de uma montanha, esperando para fotografar um raro leopardo da neve. Quando o animal finalmente aparece, Sean desiste de tirar a foto e diz:

“Coisas bonitas não pedem atenção.”

Essa frase resume a ideia de que os momentos mais especiais da vida muitas vezes passam despercebidos, exigindo apenas que estejamos presentes para senti-los.

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