Notas sobre (In)eficiência

Gostaria de iniciar este artigo com um disclaimer: este é um texto saudosista e romantizado. Então, caso você não tenha muita paciência para devaneios artísticos e um certo preciosismo, pode pular a leitura; continuaremos amigos.

Terminei o último texto refletindo sobre como o uso de uma câmera analógica é, sob muitos aspectos, contraproducente. Caso ainda não o tenha lido, recomendo fazê-lo antes de continuar, pois ele serve como ponto de partida para esta conversa.


A eficiência como estilo de vida

A sociedade do cansaço - Byung-Chul Han. Editora Vozes, 2020.

Dois anos atrás, li um livro que me fez rever minha rotina e alguns conceitos sobre a forma como vivemos: A Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han. O filósofo sul-coreano discute o esgotamento psicológico e emocional provocado pela cultura contemporânea da otimização permanente. Em busca de realizar mais em menos tempo.

Como ele escreve:


"Desempenho é o nome da mais nova forma de dominação. O excesso de trabalho e desempenho se agudiza numa autoexploração. Esta é bem mais eficaz do que uma exploração alheia, pois anda de mãos dadas com o sentimento de liberdade."


Acredito ter sido um privilégio viver a primeira década da minha vida distante dessa cultura da otimização que, hoje, banalizada na rotina, tornou-se um debilitante social quase imperceptível em meio ao nosso caos cotidiano.

Existe uma busca incessante pela redução do atrito que coloca para cada necessidade um aplicativo, para cada processo uma funcionalidade, para cada pessoa um comportamento algoritmizado. Busca-se eficiência como forma de subsistência e, para ser sincero, isso cansa. Muito. Como tantos outros, também fui vítima dessa mentalidade.

Listas de tarefas, vida calendarizada, comandos por voz, tomadas inteligentes, relógios inteligentes, notificações no pulso, pagamentos por aproximação para não tirar o celular do bolso, calorias milimetricamente analisadas, horas de sono contabilizadas, tendências medidas a cada segundo. Uma vida programável e calculada.

Depois de duas leituras seguidas de Byung-Chul Han, resolvi dar um passo atrás e refletir sobre a real necessidade de tudo isso e admito que a leitura me afetou profundamente. Não quero dizer com isso que há problema em querer melhorar processos na nossa vida, em si não é, o problema começa quando acreditamos que parar é perda de tempo.

Não acredito que tenha sofrido um burnout; talvez apenas uma estafa. E com isso vendi meu smartwatch e o substituí por um Timex simples. A sensação de não ter notificações vibrando no pulso foi surpreendentemente revigorante e aos poucos, comecei a inserir pequenos atritos de forma intencional na minha rotina. Foi nesse processo que encontrei, na fotografia, um refúgio psicológico.

E foi também nela que encontrei algumas lições inesperadas.




Verdades inconvenientes

Quando iniciamos um novo projeto — ou, neste caso, um novo hobby — a vontade de começar imediatamente costuma ser enorme.

Mas nem tudo acontece no tempo que gostaríamos. Quando se começa a fotografar em filme, muito provavelmente a primeira câmera será usada, ou melhor: velha. E, como tudo aquilo que atravessa o tempo, uma boa revisão quase sempre será necessária para garantir que tudo esteja em ordem.

Depois de sair da feira de antiguidades onde comprei minha Pentax, a primeira coisa que fiz foi levá-la para uma revisão, o que demorou cerca de dez semanas para ser finalizada. Isso mesmo. Dois meses e meio.

Ficou claro que, se eu buscava mais lentidão e mais atrito, havia escolhido o hobby certo, pois o tempo entre a compra e o primeiro clique foi preenchido por muitas horas assistindo a vídeos e tutoriais sobre aquela câmera específica — o que, confesso, não ajudou em nada a controlar a ansiedade porque a cada vídeo novo a vontade de fotografar aumentava, embora houvesse um benefício que eu ainda não enxergava: Eu estava construindo repertório, entendendo melhor a câmera, conhecendo tipos de filme, pesquisando preços, em resumo, descobrindo por onde começar.

Estudar a própria arte é indispensável. Entender os conceitos, as referências profissionais e artísticas, a história por trás de fotos famosas e debruçar-se sobre a maestria daqueles que dominaram o que hoje eu almejo alcançar. Porque prática e estudo caminham juntos.

Não existe câmera mágica.

Não existe filme mágico.

Quanto mais tempo dedicamos à nossa arte melhor dominamos aquilo que já temos, melhor tende a ser nossa expressão sobre como vemos o mundo.

O valor da ineficiência

Quando finalmente peguei a câmera para fazer minha primeira caminhada fotográfica, fui tomado por um medo bastante específico: o medo de desperdiçar. Quem já pesquisou o preço de um rolo de Kodak Gold de 36 poses sabe do que estou falando e quando um filme custa cerca de R$ 140 e cada revelação acrescenta ainda mais custo ao processo, cada clique passa a custar aproximadamente R$ 5. Uma fotografia mal pensada deixa de ser apenas uma fotografia ruim. Ela se transforma literalmente em dinheiro queimado e isso dá medo.




Muito medo.




Curiosamente, isso é ótimo, pelo menos foi pra mim porque a fotografia analógica foi a agulha na minha bolha de conforto. Ela me lembrou, de forma bastante concreta, que coisas duradouras e bem fundamentadas exigem tempo, dedicação e investimento. Foi ali que percebi que hobbies não deveriam existir para aumentar nossa eficiência. Eles existem para oferecer descanso emocional e renovação mental, independentemente do custo.

Brinco com um amigo que todo mundo deveria ter um hobby. Um hábito só seu que se encaixe nas 3 categorias abaixo simultaneamente:

  1. Gasta seu tempo.

  2. Gasta seu dinheiro.

  3. Não precisa ter utilidade prática no seu dia a dia

Porque a vida é maior do que uma lista de tarefas e porque nem tudo precisa ser otimizado. Às vezes, basta aproveitar o processo.

Talvez a ineficiência seja justamente aquilo que nos permite perceber o que realmente importa. Não uma vida com pressa, e sim, uma vida com apreço.


Esse é mais um texto do meu pequeno álbum de silêncios na tentativa de embelezar meu cotidiano e os daqueles que escolherem me ter como companhia. Acompanhados de uma boa xícara de café.Este não é um espaço para ensinar fotografia. Escrevo como alguém que ainda está aprendendo — a usar a câmera e a confiar no próprio olhar.

Estes textos são tentativas de organizar esse processo. Pensamentos soltos, dúvidas recorrentes e pequenos aprendizados que surgem ao longo do caminho.

Se algo aqui fizer sentido para você, continue por aqui. E se curtiu, compartilha com aquela pessoa que curte fotografia e alguns devaneios filosóficos.

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