Existe um debilitador em comum que cerca, aprisiona e por fim inutiliza o ato criativo: o perfeccionismo. Não serei pedante e me colocarei acima das almas mortais nas quais me inspiro e dizer que nunca aconteceu comigo. Acontece semana sim e semana também, e tenho impressão de que continuará acontecendo.
Todo mundo que exercita em algum nível uma prática criativa já se sentiu sobrecarregado pela cobrança invisível do “produto perfeito”. Uma síndrome silenciosa e nociva.
A busca incessante
Quando falamos em fotógrafos e filmmakers, essa síndrome geralmente vem em forma de um termo em inglês chamado G.A.R (Gear Acquisition Syndrome ou em tradução literal: Síndrome da Aquisição de Equipamento). Você conhece.
Aquela sensação constante de “se eu não tiver tal câmera, tal lente, tal computador, etc., não produzirei algo bom”, o que é uma completa baboseira. O melhor equipamento é aquele que lhe permite fazer o que você gosta de fazer. Não precisa ser caro. Ou sofisticado. Precisa te permitir.
Mesmo tendo esse argumento eloquentemente desenhado de forma racional na minha cabeça, já sofri bastante com G.A.R., até o fim do ano passado, quando compilei um vídeo sobre minha viagem pra Tunísia, que foi uma das melhores viagens que já fiz na minha vida.
Following the sun (Journals)
Tudo gravado com um Iphone 15. Sem câmera profissional, sem lentes de alta potência, sem equipamentos especiais. Eu, um Osmo Mobile e um iPhone 15 Pro Max. E então essa ânsia e autocobrança interna da incapacidade criativa equipamento-dependente começaram a desmoronar.
O golpe final veio logo após meu retorno a São Paulo, quando comprei minha primeira câmera fotográfica. Sem saber, eu havia comprado o antídoto ao perfeccionismo artístico, embora ainda não compreendesse completamente o peso dessa escolha.
Toques de desinfluência
Tenho acompanhado muito o trabalho de um fotógrafo Suíço-Americano chamado Daniel Millnor. O vídeo que me chamou a atenção dele foi “Thoughts on film photography 001” onde ele comenta um pouco sobre o renascimento da indústria fotográfica analógica com um toque de sarcasmo, mas com muitas informações extremamente valiosas principalmente sobre a transição da indústria do filme para o digital e o retorno de alguns para o filme novamente.
Daniel Milnor - Photographer
Daniel comenta que fotografar digitalmente e fotografar analógicamente são, nas palavras dele, “dois monstros completamente diferentes”, e isso é absolutamente verdadeiro. Contudo, o que me deixou reflexivo foi outra frase dele, que ficou ressoando por semanas dentro de mim.
Em um outro trecho do mesmo vídeo, ele comenta algo extremamente forte:
“Pessoas que levam sua fotografia a sério não estão discutindo equipamento.
Se você quer ser levado a sério como um profissional, seja fotografando, seja filmando, pare de perder tempo discutindo especificações técnicas ou pesquisando equipamentos online.
Pegue seu equipamento e comece a produzir. Ponto. É isso que separa um profissional de um amador.”
Daniel argumenta que o que diferencia profissionais de amadores não é o que se tem na mochila, é a consistência do seu olhar. Conseguir reproduzir sua assinatura artística repetidas vezes mantendo o mesmo nível de qualidade. Se você faz isso, ninguém dá a mínima pro seu equipamento.
E qualidade só se atinge com prática. A câmera nada mais é que um instrumento. Quanto mais você o utiliza, mais natural o registro se torna.
Daniel segue uma linha que me agrada muito propagada pelo também fotógrafo Sebastião Salgado, que a fotografia, embora seja um produto final importante, não é o aspecto mais importante. Antes da foto existem o contato, o olhar, a conversa, a palavra, a troca entre quem fotografa e quem é fotografado. Saber se inserir em um ambiente, se tornar momentaneamente parte dele deve ser a prioridade antes de qualquer iniciativa de acionar o botão de captura.
"Uma foto é mais que uma imagem, é o registro de um momento, cercado de intenção e sentimento. Sem sentimento não há história. Sem história não há memória."
(Re)propositando-se
Esse pensamento me assombrou por vários dias. Eu passei horas e horas buscando a melhor câmera, pesquisando valores, estudando compras em plataformas internacionais e perdi o foco do importante: tirar fotos. Me limitei a acreditar que precisava de uma câmera mirroless com 40 MP de qualidade pra poder gerar imagens que fossem consideradas “boas”. Quando o que realmente é importante, são as histórias a serem contadas e os momentos a serem presenciados. Mensagem essa muito bem apresentada no que considero meu filme favorito: A Vida Secreta de Walter Mitty.
No filme, Walter, o protagonista, embarca em uma jornada cheia de aventura à procura de um fotógrafo excêntrico na esperança de recuperar um único negativo que se perdeu. Quando finalmente encontra-o, o fotógrafo, Sean, solta uma das mensagens mais emblemáticas do filme: “Às vezes não tiro a foto. Se eu gosto de um momento... eu pessoalmente não quero a distração da câmera. Eu só quero ficar nele.”
A vida secreta de Walter Mitty - Twentieth Century Fox, 2014
Aí entra a magia da fotografia analógica. Diferente de um celular, que tira fotos imperceptivelmente, e pode em uma fração de uma notificação te sugar a atenção e te remover do momento.
A câmera analógica chama atenção, é barulhenta, te obriga a interagir com quem estiver na sua frente, até aquele objeto intrusivo desaparecer na conversa, e se isso não bastar, ela te limita. Em algum momento o filme acaba, e embora pareça contraprodutivo, te obriga a parar e observar onde você está.
Não é sobre perfeição. É sobre cuidado, contato e percepção.
Esse é mais um texto do meu pequeno álbum de silêncios na tentativa de embelezar meu cotidiano e os daqueles que escolherem me ter como companhia. Acompanhados de uma boa xícara de café.Este não é um espaço para ensinar fotografia. Escrevo como alguém que ainda está aprendendo — a usar a câmera e a confiar no próprio olhar.
Estes textos são tentativas de organizar esse processo. Pensamentos soltos, dúvidas recorrentes e pequenos aprendizados que surgem ao longo do caminho.
Se algo aqui fizer sentido para você, continue por aqui. E se curtiu, compartilha com aquela pessoa que curte fotografia e alguns devaneios filosóficos.