Filme queimado

Existe uma dura realidade que só quem fotografa em filme vai entender, uma percepção de processo criativo que é dolorosa.

Imagine a seguinte cena: você compra um filme, coloca na sua câmera, escolhe um lugar para fotografar, talvez até organize uma viagem, acha um lugar lindo, passa um dia fotografando, volta pra casa se sentindo ótimo. Leva o filme pra revelar, uma semana depois você recebe o tão aguardado link e quando abre a pasta, encontra um conjunto de atrocidades fotográficas que fazem você repensar qualquer milímetro de talento que você acreditava que teria.

Isso aconteceu comigo e acredito que acontece com todo mundo que começa a fotografar em filme. Eis alguns exemplos das minhas primeiras fotos.


Depois de um breve momento de abatimento espiritual e questionamentos morais, percebi que fotografar seria um hábito que exigiria mais investimento do que eu havia antecipado. E eu não estou falando do aspecto financeiro.

Na era da ultraexposição particular personalizada, filtros performáticos e otimização por I.A tanto em processos criativos como em correções estéticas é algo quase que universalmente aceito: o perfeccionismo estético em vitrine no Instagram. Perdeu-se a noção de que há um processo de tentativa e erro que é indispensável para o amadurecimento de uma obra e criou-se a ilusão de que o produto do ato criativo é uma constante inalterável que nasce sem atrito ou desconforto.

O excelente virou regra e, consequentemente, ponto de partida, quando deveria ser linha de chegada.

A busca pelo frame perfeito

Estando acostumado a fotografar com um iphone, senti bem essa transição. Essa facilidade, na palma da mão, embora eficiente, nos priva de algo extremamente benéfico: a jornada. Percebi que não entendia nada sobre fotografia.

Não é só apontar a câmera, esperar o software fazer seus milagres, filtro daqui, filtro dali e pronto. Absolute cinema.

Existem etapas a serem cumpridas e muita energia mental envolvida. Foi o início do meu processo de desotimização. Precisei aprender sobre triângulo de exposição, sensibilidade de filme, velocidade e abertura de obturador. Tudo isso antes de dar o primeiro clique.


Não acertar de primeira é doloroso, não vou mentir. No meu primeiro rolo de 36 poses só consegui aproveitar 6 fotos, que não ficaram boas, digo isso porque ficaram nítidas. Mas isso só te abate no primeiro minuto, depois você abre todos os arquivos e inconscientemente analisa seu trabalho como que procurando o santo graal da fotografia.

A cada frame um aprendizado novo, um “poderia ter feito isso melhor” e por incrível que pareça, inicia-se aqui o que eu gosto de chamar de busca pelo frame perfeito; você estuda ângulos, enquadramentos, exposições, mesmo quando não está com a câmera em mãos.

Você passa a ansiar pelo próximo rolo. Pela próxima caminhada. Pela próxima viagem. Pela próxima revelação. Esteja ela boa ou não.

Não foi tempo perdido, foi aprendizado garantido. E de repente você se vê no primeiro degrau de uma longa jornada. Que têm seus 36 limites e que exigem duas commodities que estão se tornando cada vez mais raras hoje: presença e paciência.


“Suas primeiras 10 mil fotografias são suas piores”

Henri Cartier-Bresson


Em termos de filme fotográfico, isso equivale a cerca de 277 rolos de 36 poses. A citação sugere que o início é puramente aprendizado técnico e visual. Ninguém nasce sabendo.

Desotimização

Fotografar com uma câmera completamente manual exige esforço e dedicação. Não tem atalho. Você precisa aprender a instrumentalizar sua intenção e fortificar sua atenção. O uso de câmeras analógicas tem crescido bastante, tem muita empolgação gerada pelo marketing da nostalgia. Mas a verdade é que fotografia analógica exige uma mentalidade antiimediatista.

Você não sabe se acertou até mandar revelar o filme. E se isso parece um gatilho pra ansiedade, é porque é. Mas você não tem outra opção.

Você é obrigado a esperar.

Mas esse talvez tenha sido o principal atrativo que me prendeu a essa prática, ter os pés fincados na realidade de que momentos importantes exigem presença e lembrar que há um custo e um limite pra tudo que fazemos.

Muitas vezes a vida não repete oportunidades.Às vezes penso que com toda a tecnologia de captação de imagens que temos hoje, banalizamos nossa coleção de memórias. Captamos demais, vemos de menos.

A dor do filme fotográfico é o antídoto dessa banalização. Além do hype. Além da moda. Sentir o peso no bolso e na memória de cada foto registrada ensina o valor de cada momento.


Esse é mais um texto do meu pequeno álbum de silêncios na tentativa de embelezar meu cotidiano e os daqueles que escolherem me ter como companhia. Acompanhados de uma boa xícara de café. Este não é um espaço para ensinar fotografia. Escrevo como alguém que ainda está aprendendo — a usar a câmera e a confiar no próprio olhar. A fotografia entrou na minha vida sorrateiramente. Aos poucos, foi ficando. Mudou a forma como observo e registro o que se passa.

Estes textos são tentativas de organizar esse processo. Pensamentos soltos, dúvidas recorrentes e pequenos aprendizados que surgem ao longo do caminho.

Se algo aqui fizer sentido para você, continue por aqui. E se curtiu, compartilha com aquela pessoa que curte fotografia e alguns devaneios filosóficos.

Até a próxima!

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