Quando uma imagem vira linguagem.
Diz o ditado que “uma imagem equivale a mil palavras”. Isso soa hiperbólico, não? Uma atribuição excessiva e até um tanto dramática. Se contrariarmos essa afirmação, entramos em um âmbito utilitarista da arte: a foto se torna a captura momentânea do viver, tal qual a vida acontece, sem ensaio, sem enredo e às vezes, sem sentido. Uma sequência de momentos congelados em sua própria entropia. Arquivados e esquecidos.
Mas seria apenas isso: um eterno kaleidoscópio sem sentido?
Ao vencedor… as cebolas
Parafraseando nosso Machado de Assis com uma pitada de Shrek: toda fotografia é como uma cebola. Existem camadas.
O que está em foco, chama a atenção. Mas nem sempre é a história completa. Ou não deveria ser.
Lembro de um comercial do banco Itaú, que dizia “não são as respostas que movem o mundo, são as perguntas”. Quanto mais estudo e pratico fotografia, percebo que uma boa foto não é a que expõe, é aquela que inquere. Aquela que carrega perguntas. Quanto mais perguntas, melhor a construção da imagem. Rick Bebbington chama isso de storytelling visual.
É inegável ver como grandes fotógrafos como Sebastião Salgado, Matt Glimmer, Annie L. dominavam a arte de fotografar cenários que, mais do que uma exposição em si, eram histórias congeladas em um frame. Nos levando a questionar cada centímetro da foto analisada. Fotografias que instigam, alegram, confortam, sensibilizam e até oprimem.
“não são as respostas que movem o mundo, são as perguntas”
Imagens que, se transcritas, poderiam se tornar romances inteiros e não apenas contos de mil palavras.
O objeto, a luz, o enquadramento, a cor, cada aspecto técnico forma um elemento na construção narrativa a ser contada. No entanto, sempre tive comigo que toda forma de arte é, antes de mais nada, um autorretrato de quem a exerce.
Como diria o versículo em Mateus 12.34: “A boca fala do que está cheio o coração”. A arte transborda daquilo que preenche o artista. Seja pela música, seja pela dança, seja pela retórica, pela cozinha, pela pintura, pela jardinagem ou no meu caso, por uma lente 50mm.
Autorretrato
Gosto de atribuir credibilidade ao ditado, pois se o considerarmos verdadeiro, adicionamos uma camada de misticismo artístico que é até bastante saudável.
Sempre gostei de metáforas. Sempre foram pra mim algo facilitador do aprendizado e, particularmente, algo divertido de aprender. Como se o que se intenciona ser dito precisasse ser descamado em etapas artesanalmente construídas, cada uma em si carregando inúmeros significados escondidos que não podem ser verbalizados. Nas palavras de Elliot Erwitt:
“Fotografar tem como objetivo não precisar explicar em palavras."
Concordo em absoluto com essa afirmação.
A arte existe para dizer e expressar sem verbalizar. Acredito que essa linha de pensamento foi fomentada e sacralizada na minha mente desde a adolescência, à medida que descobria o cinema como expressão artística. Essa não é uma coluna de cinema (pelo menos não ainda), mas é impossível pra mim não admitir a influência que filmes e séries tiveram, e ainda têm, na minha jornada de aprendizado.
Quando comecei a tomar mais consciência do que seria um storytelling visual, cineastas como Clint Eastwood (com Os Imperdoáveis e As Pontes de Madison) e Michael Mann (Fogo contra Fogo e O último dos moicanos) me ensinaram que muitas vezes conversas inteiras podem existir dentro de uma única composição fotográfica.
Os Imperdoáveis (1992) - Dir. por Clint Eastwood
Fogo contra fogo (1995) - Dir. por Michael Mann
Outro aspecto que é particularmente importante pra mim, e que aprendi assistindo aos filmes acima mencionados, é a aparente simplicidade com a qual a fotografia dessas produções foi construída, como se estivéssemos espiando por uma janela aberta, uma série de imagens e histórias cotidianas que ignoram que estão sendo gravadas.
E esse é um ponto que passei a perseguir como fotógrafo amador. Uma fotografia composta pela casualidade cotidiana. Discreta, mas jamais indiferente.
Essa reflexão pode parecer algo simplório, mas pra um adolescente tímido, sem eloquência retórica, com dificuldade argumentativa, entender que palavras (vocalizadas ou escritas) eram apenas uma forma de expressão se tornou mais do que um exercício criativo, se tornou uma ferramenta de autorregulação emocional.
Talvez venha daí meu interesse em mostrar mais do que falar. Exibir mais do que explicar. Há um mundo que só eu consigo ver, e só minha lente consegue mostrar.E no fim, esse acaba sendo o objetivo, contar minhas histórias em 36 frames, sem legenda, sem hashtag, mil palavras de cada vez.
Esse é mais um texto do meu pequeno álbum de silêncios na tentativa de embelezar meu cotidiano e os daqueles que escolherem me ter como companhia. Acompanhados de uma boa xícara de café. Este não é um espaço para ensinar fotografia. Escrevo como alguém que ainda está aprendendo — a usar a câmera e a confiar no próprio olhar. A fotografia entrou na minha vida sorrateiramente. Aos poucos, foi ficando. Mudou a forma como observo e registro o que se passa.
Estes textos são tentativas de organizar esse processo. Pensamentos soltos, dúvidas recorrentes e pequenos aprendizados que surgem ao longo do caminho.Se algo aqui fizer sentido para você, continue por aqui. E se curtiu, compartilha com aquela pessoa que curte fotografia e alguns devaneios filosóficos.
Até a próxima!