Por que fotografar com filme?
Talvez a questão mais relevante e recorrente que alguém escute quando escolhe começar na fotografia analógica seja: “por quê?”
E depois de quase um ano fotografando com filme, gostaria de apresentar uma resposta simples, mas não há.
Eu vou admitir que a primeira câmera foi comprada em um impulso (e a segunda também). Como comentei no último texto, comecei a exercitar um olhar fotográfico a partir do que tinha em mãos: meu celular. E após algum tempo, decidi dar o próximo passo e comprar uma câmera. Minha intenção inicial era, sim, adquirir uma câmera digital, mas durante a fase de pesquisa, fui confrontado com uma realidade que muitos adeptos amadores e profissionais da fotografia expressam: não é a câmera, é o olhar. E o olhar se exercita independentemente do equipamento.
“Não é a câmera… o olhar se exercita independentemente do equipamento.”
Então por que não começar de baixo? Uma câmera analógica até que cairia bem. Depois de muita pesquisa, decidi que queria uma câmera completamente mecânica, que me permitisse raciocinar e exercitar cada aspecto do triângulo de exposição (Controle de ISO, Velocidade do Obturador e Abertura do diafragma) individualmente, não era só sobre tirar fotos; era sobre uma jornada de aprendizado.
E não foi fácil, existem literalmente milhares de câmeras analógicas em inúmeras variações no mercado. Algo que eu desconhecia completamente até começar a estudar sobre câmeras analógicas. Depois de muita pesquisa, já entendia bem quais modelos gostaria de adquirir. O problema era achar.
Até que, um belo dia, passeando por uma feira de antiguidades, encontrei um modelo que já procurava: uma Pentax Spotmatic. E ali iniciava minha jornada.
Apesar da crescente onda de nostalgia incentivada pelas redes sociais e pela redescoberta dos dispositivos analógicos pela atual geração, sacramentando uma tendência de comércio extremamente lucrativa, posso apenas expressar o que cabe dentro da minha percepção e experiência pessoal.
E como tudo na vida, não há uma resposta absoluta; sendo assim, aqui vão alguns dos motivos que me levaram a fotografar em filme.
A anti-produtividade
Atualmente, o ato de compartilhar uma foto se tornou instantâneo: é só levantar o celular, tocar em um ícone, passar o dedo para um lado na tela para selecionar o filtro desejado, clicar novamente, tirar as fotos e compartilhar. Pronto. O mundo tem acesso ao que você vê.
A facilidade e a interatividade mediadas pela tecnologia é algo maravilhoso. Longe de mim ser um eremita digital que desaprova o bom uso da tecnologia. Por um bom tempo, fiz de tudo para usar todas as ferramentas disponíveis que pudessem me ajudar a parar de desperdiçar meu tempo e aumentar minha produtividade: calendários digitais, checklists, smartwatches que contam passos e calorias, softwares de inteligência generativa, dentre outros.
Acho o exercício dessa curiosidade extremamente saudável, mas todas essas facilidades, por mais benéficas que sejam, acabaram por nos habituar a uma depreciação cognitiva.
Não há mais apreciação.
Não há ponderação.
Não tiramos mais fotos.
Coletamos dados.
No mundo onde cada necessidade encontra um aplicativo que possa supri-la, onde cada rede social briga por um pedaço da nossa atenção e onde cada notificação fragmenta nosso foco, comecei a sofrer de um lento burnout e um esvaziamento criativo.
Desgastado pelo consumo incessante e pela exposição digital contínua, cheguei a um ponto de fadiga mental e decidi buscar alternativas, algo mais palpável e lento, quase palatável.
Passei a ler livros físicos, escrever compromissos no papel, usar relógios analógicos e por que não, tirar fotografias usando filmes? Talvez eu tenha sim sido influenciado pela atual tendência nostálgica da busca do analógico como performance pessoal, mas independentemente do motivo, os benefícios são inegáveis.
Fora do Instagram e da onda da nostalgia, o atrito criativo foi instantâneo, como se um freio de mão fosse puxado, causando uma parada mental brusca. Não era mais estética vazia, era o retorno do esforço criativo. Como se após meses de sedentarismo, eu retornasse à academia. Tendo que pensar em cada movimento. Cada ajuste antes de cada clique.
E adivinha? Doeu.
Ritualidade & Presença
Existe algo de magnético quando se carrega uma câmera fotográfica. Já não há mais a invisibilidade proporcionada pelo smartphone; você sai de casa com uma câmera no pescoço e é obrigado a admitir que há uma intenção de tirar fotos, não é mais mera conveniência.
Sentir o peso da câmera, abrir o compartimento, desembalar o filme, inseri-lo na câmera, testar o gatilho, fechar a câmera, colocá-la no pescoço e sair caminhando.
E toda intenção gera antecipação, que gera preparação, que gera uma ritualização. Sem distrações. Sem notificações.
O ato de queimar no negativo a imagem vista através do visor exige um compromisso que custa seu foco, seu tempo e seu dinheiro. Cada rolo de filme custa dinheiro (o que não é barato). Cada clique te puxa pro que eu considero o maior benefício de uma arte analógica: presença.
A limitação de 36 poses por rolo de filme, a impossibilidade de conferir se a foto ficou bem enquadrada, iluminada ou bem registrada, o custo de cada rolo. Tudo exige de você: cuidado, atenção e presença. Commodites extremamente disputadas hoje em dia.
E num mundo de liquidez e fluxo constante, cada limitação mencionada acima não te prende, pelo contrário, te firma, e a cada foto, a mente vai aprendendo a se acalmar, longe do ruído de scrolling infinito e notificações incessantes.
A fuga
Abrir uma câmera e carregá-la com um filme abre uma porta pra dentro de um refúgio de 35mm. Um pequeno cômodo mental iluminado em uma fração de segundo preservando um momento singular que pertence somente a você. A impossibilidade de corrigir, ajustar, filtrar e postar pode soar incômoda e pouco suportável, principalmente se você é alguém ansioso, mas é algo que traz desconforto apenas no início.
Quando você menos esperar, vai estar estudando enquadramentos, luzes indiretas, sombras e movimentos. Vai retomar o controle da sua atenção sem sentir necessidade de alguma validação na forma de coraçõezinhos flutuantes. É você e sua forma de ver o mundo através de uma lente 50mm.
E sendo bem honesto, cada clique vale a pena, até os ruins. Porque no final, ainda há a sensação de descoberta, quando você recebe seus filmes revelados semanas depois, e cada sensação volta junto. A luz, o barulho e os cheiros, que estavam presos naquele momento que você talvez nem lembre mais que guardou. Aspectos preservados além do alcance da instantaneidade e da velocidade do digital.
E aí fica a pergunta:
Fotografar com filme vale a pena?
Talvez não financeiramente. Mas não encare como um custo, encare como um investimento.
Que vale cada centavo, cada segundo e cada momento.