Meu primeiro frame

Nos últimos dias eu me debruçei com esforço sobre lembranças e memórias pra tentar recordar com clareza e precisão quando exatamente meu interesse por fotografia começou a aflorar. Não tive sucesso. Digo isso porque não acredito que tenha sido em um único momento, decisivo, singular, marcante.

Olhando pra minha trajetória, não consigo reconhecer tal momento. Muito provavelmente porque ele não existe. Depois de muita reflexão, percebo que meu primeiro frame se deu como resultado de uma soma de pequenos momentos construídos ao longo de uma vida de inspirações relacionais, musicais e cinematográficas. Não um momento de êxtase catártico.

Alguns meses atrás, andando por uma feira de rua, me deparei com uma banca de fotografias, onde em meio a inúmeras fotos belíssimas havia algumas frases em molduras de madeira bem trabalhadas, e uma delas me chamou a atenção. Esctita em letras pretas em fundo branco estava a frase:

“A fotografia é a literatura do olhar”

E pensei comigo: “É isso”


Sempre me considerei uma pessoa tímida, com bastante dificuldade de me expressar de maneira clara através de palavras e discursos eloquentes. Então talvez esteja aqui uma das minhas principais motivações pra buscar na fotografia mais que um exercício artístico, mas sim uma forma de expressão. Uma imagem, mil palavras.

O salto

Recentemente assisti a um vídeo de um fotógrafo que admiro bastante chamado Teo Crawford onde ele tenta responder à seguinte pergunta: “O que faz de você um fotógrafo quando todos estão tirando fotos?”

Eu sei. Essa é uma pergunta muito abstrata e com tantas camadas filosóficas que poderiam ser discutidas em múltiplos textos. Mas por ora, vamos nos ater à conclusão que Teo Crawford apresentou: um fotógrafo é aquele que intenciona capturar o presente através de uma imagem, independentemente da qualidade do equipamento ou da quantidade de técnicas aplicadas a essa captura. Em síntese, um fotógrafo nasce de uma intenção. Essa é, nas palavras de Crawford, a essência da fotografia.

Definitivamente, esse tipo de reflexão nem me passava pela cabeça quando comecei a fotografar. Meu objetivo era pático, não artístico.

Um fotógrafo nasce de uma intenção. Essa é a essência da fotografia.
— Teo Crawford

No ano de 2021, tomei uma decisão profissional que causou uma mudança de vida significativa. Ao me mudar pra São Paulo acabei sendo confrontado por múltiplas situações (boas e ruins) que me fizeram refletir sobre a importância de ter alguma forma de registro não só da minha jornada profissional, mas também da minha jornada pessoal. Não só pra mim, mas também para aqueles que ficaram longe.

Quando mais novo, nunca dei muita importância a registros fotográficos cotidianos, sempre olhei com certo receio e até com presunção o registro excessivo de momentos. Por dois motivos, acredito eu. O primeiro sendo minha óbvia timidez, sempre relutante em ser fotografado. O segundo sendo o meu limitado senso de importância. Me permita expandir.

Quando se passa muito tempo em um mesmo lugar, cercado pelas mesmas pessoas e pelos mesmos eventos, temos a tendência de não dar o devido valor às pequenas coisas. Até o momento em que essas rotinas e pessoas não fazem mais parte do seu dia a dia. Até o momento que a saudade aperta e tudo que você tem é um registro em foto ou vídeo, gravado de maneira descontraída e desproposital. Nesse momento, você abre a galeria do celular ou feed do instagram em busca de algum alento pra conter esse dolorido silencioso que nos toma quando estamos distantes.

Foi num momento desses que pensei comigo: “Eu preciso mudar isso.”

Então naquele mesmo ano resolvi fazer um investimento e comprar meu primeiro equipamento fotográfico: um Iphone 13 Pro. Esse talvez tenha sido meu divisor de águas. Um celular mais “potente” e especificamente projetado pra um uso mais audiovisual foi um impulso inicial pra começar a fotografar de maneira mais séria. Minha escolha não foi apenas por um clubismo cego (quem me conhece sabe que sou um aficcionado por Apple) mas se deu por uma limitação orçamentária. Como não tinha dinheiro pra comprar uma câmera, decidi investir em algo que me permitia ter qualidade e praticidade. Um smartphone.

Considero essa escolha uma das mais certeiras que poderia ter feito.

De degrau em degrau

Apesar do custo, existem inúmeras vantagens de se ter um bom smartphone com uma câmera de qualidade, sendo a mais importante (pra mim): ele está sempre no seu bolso. Ter em meu bolso a câmera que eu uso o tempo inteiro me permitia exercitar meu olhar fotográfico sem chamar atenção.

Isso foi fundamental pra mim. Sendo uma pessoa tímida, sempre tive receio de chamar atenção. Como todos hoje andam excessivamente com o celular nas mãos, eu era apenas mais um na multidão. O que me deixou extremamente motivado e livre de qualquer autocobrança estética.

Minha intenção era clara, quero compartilhar o que tenho experimentado pelo mundo com aqueles que eu amo, mas quero fazer isso com o mínimo de qualidade. Pra isso eu precisava estudar. Então comecei a buscar conhecimento sobre como configurar minha câmera, qual a melhor maneira de editar, em qual formato fotografar, entre outras coisas.

E graças à “anonimato” proporcionado pelo meu celular, pude exercitar, errar e aprender sem pressa. Uma foto de cada vez. Talvez com uma câmera fotográfica propriamente dita em minhas mãos eu nunca tivesse coragem pra começar.

Revisitando minha galeria, consegui encontrar minhas primeiras fotografias intencionais, tentando aplicar o pouco que eu havia aprendido e me arriscando em edições mais simples.

Essas fotos foram tiradas em uma viagem durante um fim de semana de folga quase um ano depois de começar a estudar fotografia, nem de longe são minhas primeiras fotos. Mas essa viagem pro Guarujá foi minha primeira “viagem fotográfica”.

Fotografar em preto e branco foi uma escolha que me pareceu natural na época. Na minha cabeça era simples: um quadro, uma ação, uma história.

Era isso. Não precisava de muita técnica. E aí comecei a perceber que o mais importante não era a qualidade do equipamento ou a excentricidade do cenário. O mais importante era manter o olhar atento.

Por que o valor da memória não está na qualidade do registro, mas sim na importância de estar presente em cada momento.

Esse é mais um texto do que considero meu pequeno álbum de silêncios na tentativa de embelezar meu cotidiano e os daqueles que escolherem me ter como companhia. Acompanhados de uma boa xícara de café. Este não é um espaço para ensinar fotografia. Escrevo como alguém que ainda está aprendendo — a usar a câmera e a confiar no próprio olhar. A fotografia entrou na minha vida sorrateiramente. Aos poucos, foi ficando. Mudou a forma como observo e registro o que se passa.

Estes textos são tentativas de organizar esse processo. Pensamentos soltos, dúvidas recorrentes e pequenos aprendizados que surgem ao longo do caminho.

Se algo aqui fizer sentido para você, continue por aqui. E se curtiu, compartilha com aquele amigo que curte fotografia e alguns devaneios filosóficos.

Até a próxima!

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Meu pequeno album de silêncios