Bilhar de quinta

Eu nunca fui um bom esportista. Em nada. Individual ou coletivo. Eu sempre me mantive consistentemente ruim. O mesmo não pode ser dito do meu pai. Infelizmente, quando eu me entendi por gente, meu pai já não jogava mais bola.

Tudo o que tenho são relatos de amigos de infância e irmãos dele. Com exceção de uma partida a que eu pude assistir quando eu estava na sétima série, dele jogando com alguns amigos de infância, assistir ao meu pai jogando bola não é algo de que eu tenha muitas lembranças.

Mas sinuca ou bilhar, esses eu pude acompanhar bastante, principalmente porque tínhamos um acesso além do saudável a mesas desse tipo, por conta do velho Armando, meu avô, que tinha uma no quintal. Fora a mesa do sítio em Presidente Figueiredo que rendeu algumas noites em claro.

O que deixou o encontro de ontem um pouco mais nostálgico.

— Rapaz, eu só vou falar uma coisa pra vocês: a maldade tá calculada nesse quadro aqui, tá? Vocês não tão querendo ver — disse o Rafha, encarando o quadro e refazendo a conta dos pontos como se alguma coisa fosse mudar.

— Ele tá com quanto? —  perguntou o Vitor.

— Quarenta. Se ele derrubar a dez, ele ganha; nem adianta. Ninguém chega — respondeu o Rafha.

— De quem é a vez agora? — perguntou meu pai.

— Do Rafha — disse eu.

— Eu sou depois do tio?! Aí vocês querem me f… mesmo! Na próxima a gente vai trocar essa ordem, quero nem saber.

— Bora pô. Joga logo! — apressei eu.

— Quer falar o quê? Tu tá mancomunado com teu pai. Tá só entregando jogo.

— E a culpa é minha se ele não perde uma bola? Derruba a dez então e para de reclamar.

— Tu tá reclamando de quê? Eu ainda não fiz um ponto — disse o Vitor.

— Joga logo pô.

Rafhael deu uma tacada com mais raiva do que precisão, fazendo a bola branca dar uma volta na mesa sem tocar em nenhuma bola. Penalização. Vez do Vitor.

— Não vai nessa… joga na outra que tá mais fácil. — disse meu pai.

— Jr! Não joga nessa não, que senão teu pai vai levar. Joga na outra. Nessa não p… na outra. Ah, vá se… acabou. Já era. Hoje eu vim só pra anotar nessa…

Errei a dez. Vez do meu pai.

— Agora já era. Tá dado. Pode apagar o quadro! Vamo logo começar outra. Tô falando que a gente tem que se unir, vocês não escutam — gritou o Rafhael, andando de um lado pro outro, com o taco balançando na mão, na esperança de que seu pequeno alvoroço verborrágico desconcentrasse o Adilsão.

Não funcionou.

Com um olhar firme e um sorriso de canto de boca, pra indignação do Rafha, precisão cirúrgica… bola dez na caçapa.  Fim de jogo.

Sete partidas a zero.

Andando de bicicleta

Posso soar condescendente, por ser meu pai, mas existe algo de instigante, pra não dizer belo, em como meu pai se aproxima de uma mesa de sinuca. Um contemplar cauteloso. Quase um Randall Memphis encontrando sua Eleanor.

Mais cedo naquela tarde, Rafhael nos recebeu com o sorriso de sempre (que só durou até o jogo começar, diga-se de passagem), nos levou até o salão de jogos e subiu pra pegar alguns petiscos, liguei a câmera pra um teste rápido, ajustei o viewfinder no meu olho direito e instintivamente, comecei a acompanhar o que só posso descrever como um sutil ritual de reconhecimento territorial quase inconsciente.

Meu pai circulou a mesa devagar, jogando conversa fora, mas com as mãos cuidadosamente direcionadas sobre a mesa, checou os cestos de cada caçapa sem tirar as bolas de dentro e finalizou a primeira volta. Iniciando uma segunda, começou a retirar as bolas das caçapas, espalhá-las sobre uma extremidade da mesa.

Por último, tirou a bola branca, foi pro lado oposto de onde as bolas estavam concentradas e começou a jogar a bola branca de forma rasteira e suave com a mão na direção do batente da mesa.

— Essa tabela tá morta— disse ele

—Como assim? — perguntei

— A bola não volta com a mesma precisão. Tá absorvendo impacto. Isso é ruim. Tem que ser trocado.

Virou de costas, olhou os tacos no suporte da parede, levantou de leve um a um. Escolheu o taco. Voltou pra mesa, ajustou a posição da bola branca e começou a testar o taco, com a bola direcionada para o batente da mesa. Ela ia e voltava. Ia e voltava.  - Tem giz aí? -

Sem pressa. Passou o giz azul na ponta do taco, um movimento semicircular rápido e repetitivo, enquanto os olhos encaravam meio perdidos o verde sedoso sobre a mesa de mármore e madeira.

Daí eu percebi… Não era cautela. Era memória. O tom de verde, o cheiro de giz, o ressoar das bolas de marfim.

A bicicleta reerguida e equilibrada.

Bola branca com efeito pra um lado, com efeito para o outro. Ia e voltava pro mesmo lugar: pra ponta do taco. Adicionou uma bola e começou a brincar. Aquecimento. Começou a organizar as bolas em forma triangular, 15 coloridas enumeradas conforme suas cores tradicionais.

Posicionou a bola branca no lado oposto enquanto o Rafha voltava com água, coca e petiscos. - E aí? Vamo jogar como? -

— Como vocês quiserem, tô enferrujado, faz tempo que eu não jogo —

— Eu também não, tio. Vamos cada um por si que eu quero ganhar sozinho —

— Rafha… o papai reprovou a sexta série…

— Como assim?

— … por sair mais cedo pra jogar bilhar…

A tacada seca ecoou no ar, precisa e direta. Rafha me olhou. Silêncio. Bolas espalhadas. Dilsão (re)começou a pedalar.

PS: Por mais que eu tenha tomado certa liberdade poética com a ordem dos diálogos, todos eles foram falados como aqui estão escritos, com alguma amenização por minha parte. Traduzir na íntegra necessitaria de apitos sonoros muito frequentes pra transcrever com exatidão o estado emocional do Rafhael. Apesar do leve exagero, meu pai levou todas e o único que chegou perto de uma vitória foi o Vitor.

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