Causo familiar

Desci da estação do Brás por volta das 7h30 da manhã voltando do plantão. O sol estava tímido apesar do horário. As últimas manhãs têm feito jus à terra da garoa. Caminhei em direção ao meu condomínio entre o fluxo de pessoas normais se dirigindo a mais um dia de labuta. Parei na padaria, comprei cinco pães, atravessei a rua e entrei no condomínio.

Sempre gostei da sensação de estar chegando em casa quando todo mundo está saindo pra trabalhar; me traz uma sensação nostálgica dos dias em que, por algum motivo, eu não ia pra aula e podia ficar em casa. Um afago.

As luzes do corredor branco vão se acendendo à medida que sigo em direção à minha porta. Antes de abrir, já  sinto o cheiro de café novo e o barulho de movimento dentro do apartamento.

Abri a porta:


— Jr. Tu nem sabe! Papai jantou 3 vezes ontem.

— Queeee… deixa de conversa. Só comi umas bolachas.

— Fruta que é bom, não come.

— Porque que tu acorda mal-humorada hein?

— É o Sr. que já acorda me perturbando. Linguagem: atos de perturbação.

— Agora pronto.

— Cadê minha havaiana, hein? Pai! O senhor vai esticar minha sandália.

— Que esticar… tô amaciando. Já fez café?
— Ahhhhhh


Por motivos éticos, manterei a discrição e não revelarei quem geralmente perde essa discussão. Até porque ela não acaba. Isso eu vou deixar por conta de vocês. Qualquer interpretação por parte do leitor excede a minha responsabilidade. Eu preciso admitir um equívoco: superestimei minha capacidade como redator. A quantidade de causos familiares tem sido maior do que minha disponibilidade para registrá-los, quanto mais redigí-los.

Mas isso não vai me impedir de tentar.


Garoa e pão de queijo

Todas as semanas do mês anterior à chegada de todos, eu sempre recebia pelo menos uma vez por semana a mensagem: tá frio aí? Ao que eu respondi com muita honestidade: climinha de primavera, dia quente e noite fresca. Vem em paz. Mas se tem um aspecto no qual São Paulo gosta de nos fazer de besta, é a previsão do tempo. Um dia antes da chegada de todo mundo, abri o aplicativo pra confirmar minha recomendação e juro que escutei um “a-ha” em algum lugar acima de mim acompanhado de risadas bem equalizadas.

Não que eu esteja reclamando, gosto do frio. Dias frios fazem a gente querer ficar em casa, mas também são ótimos para caminhadas fotográficas ou simplesmente caminhadas.Por aqui a recepção é mista, o que aqui em casa se traduz em minha mãe querendo bater perna e meu pai querendo ficar em casa. Equilíbrio. Temos tentado conciliar com parcimônia ambas as partes e na última semana tivemos bons momentos em família, tanto em passeios quanto em casa. O que tem me dado oportunidade de testar o meu brinquedo novo fazendo uns retratos mais contidos.

Apesar da alta incidência de roubo de Havaianas dentro do apartamento, tem sido uma convivência pacífica com direito a muito café, cuscuz e pão de queijo, que DriDri anuncia orgulhosamente fazer do zero com “queijo de verdade”. E realmente, fica bom. Aliás, DriDri anda mandando muito bem na cozinha, o que eu acho extremamente proveitoso.

Family time

É a primeira vez em dois anos que conseguimos estar os quatro juntos. Nos encontramos todos em algum momento, Adria com meus pais, meus pais comigo, eu com a Adria, mas não todos nós juntos. Então me sinto muito contente não apenas por estarmos juntos, mas também por podermos comemorar o aniversário da Hozanix. Outro aspecto que assimilei nessa última semana é que Adria definitivamente é a foodie da família. Escolheu um restaurante libanês de primeira.

Mesmo que os dias tenham permanecido, em sua maioria, chuvosos e nublados, isso não nos tem impedido de cumprir nosso roteiro tradicional por São Paulo. Do Ibirapuera ao Vale do Anhangabaú, temos conseguido aproveitar algumas tardes de sol pra fazer caminhadas sem destino e, óbvio, tomar um café superfaturado. Mas isso fica pra um próximo texto.

Tenho tentado registrar o máximo que consigo, mas entre plantões, saídas, cafés e galerias, tem sobrado pouco tempo pra escrever. O texto de hoje é um pouco mais curto, mas não considero isso algo ruim. Pra mim é só um reflexo de dias mais cheios, de afazeres, comida e principalmente de aconchegos.

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Ohana